O ciclista safado

Rubens Amador. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

*Por Rubens Amador

Tinha determinado bar onde, aos sábados, após soltarem do serviço, vários operários passavam no referido estabelecimento para tomar um aperitivo e jogar conversa fora.

Seriam umas seis e meia quando entra no referido bar, descendo de uma velha bicicleta, um tipo extrovertido, bem falante, que, apesar de não conhecer ninguém ali, cumprimenta solenemente os circunstantes: “Muito boa tarde, cavalheiros!”.

E sem cortar seu ritmo, vai falando com certa solenidade. “Os senhores, neste momento, vão ficar sabendo de um fato histórico através do seu amigo aqui!”. (Por traz do balcão o dono do bar apurou o ouvido.) “Pois, senhores, neste momento, acaba de ser encontrado um dos braços do corpo do falecido, em acidente, Dr. Ulysses Guimarães”.

O pessoal em silêncio e certo enfado, pois só falava em futebol, ouvia aquele personagem bem falante, que não parava o seu relato. “Estão falando que a cerca de 500 metros do local onde deu-se o macabro achado, apareceu uma perna também, que no primeiro momento parece ser feminina”.

Aí, o falastrão olha para cima do balcão onde havia um vidro com ovos cozidos em salmoura e pede um. O barman alcança-lhe o ovo e ele começa a comê-lo, sem parar de falar. “Aquele acidente, como já faz mais de 25 anos do ocorrido, só o DNA poderá esclarecer se o achado é daquela personagem importante da nossa política, embora, pelo local do achado, tudo indique que sim”.

Silêncio no auditório que o “orador” não deixava espaço para nenhuma palavra de outrem. Acabado o primeiro ovo, que comera, dirige-se ao dono do bar e solicita-lhe: “Dê-me outro!”. Prontamente lhe foi alcançado o segundo petisco. E ele, comendo e sempre falando ao mesmo tempo, devora o segundo ovo cozido. Passa um lenço sobre a boca e como quem vai terminar seu discurso, finaliza: “Os senhores acabaram de ficar sabendo deste fato histórico graças ao seu amigo aqui. Para mim foi um prazer”.

E, devagarinho, foi se aproximando da porta de saída. De repente, pulou em cima da sua bicicleta e já ia saindo. O dono do bar, pressuroso, grita de trás do balcão, com as mãos apoiadas sobre ele: “E OS OVOS?!”.

O personagem estranho, que surgira de repente, olha para o homem do bar e brada: “ESSES NÃO ACHARAM AINDA!”. E sumiu na perspectiva da rua, pedalando com toda força.