Raphaela Campos Vique Wild e suas tranças

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Por Ciro J. Mombach
Médico

Em 1920, a gripe espanhola grassava por todo o mundo. Mais de 500 milhões de pessoas foram infectadas e entre 20 e 50 milhões morreram. Bem mais que os 7 milhões que morreram de covid. Entre as vítimas, a mãe de Raphaela, uma criança espanhola do norte da Espanha, do país Basco, com apenas 3 anos de idade.

Seu pai, José Campos, juntou rapidamente seus poucos pertences e, junto com sua preciosa filha, emigrou para o Brasil. O vapor levou mais de 30 dias de uma sofrida viagem pra chegar ao destino que lhe coube: Porto Alegre. José alugou uma casa na rua da Praia e retomou seu ofício de torneiro mecânico. Embora viúvo, nunca se envolveu em outra relação duradoura e criava com carinho e dedicação sua querida filha, com a ajuda de uma madrinha que assumiu o papel de mãe.

O tempo passou e Raphaela se tornou uma linda espanholita de longos cabelos cor de cobre e tez mediterrânea. Se postava na janela a observar o movimento e não deixou de perceber um jovem bem vestido, de olhos muito azuis, que sempre que passava a fitava longamente com olhar esperançoso. Tantos olhares trocaram que se apaixonaram e casaram. Ele, dentista recém
formado, descendente de alemães, emprestou-lhe mais um sobrenome: Wild.

Foram morar em Cachoeira do Sul e rapidamente progrediram financeira e socialmente. Tiveram três filhos homens. Raphaela, então uma jovem mulher, resolveu cortar seus longos e cobreados cabelos e guardou as duas tranças em uma caixa. Com o falecimento de José Campos, herdaram um sobrado na rua General Neto e passaram a morar no inverno em Cachoeira e no verão em Porto Alegre.

Os anos passaram e as doenças chegaram. Um AVC deixou sequelas incapacitantes para a profissão de dentista. Pouco depois, um edema pulmonar a deixou viúva. Alguns, muitos anos depois, já senil, fraturou o fêmur e, a seguir, um infarto a levou pra junto do seu alemão. Da espanholita que sobreviveu à gripe espanhola e teve uma longa vida longe de sua terra natal, sobraram, além da história, as tranças que enfeitaram em apliques muitas cabeças da família, e hoje repousam na mesma caixa, no armário de sua neta, minha esposa……