
Num sábado de sol, o movimento começa cedo no Centro Histórico de Pelotas. Entre bancas de antiguidades, roupas de segunda mão, discos de vinil, artesanato e objetos que carregam décadas de história, o que acontece ali é mais do comércio. Pessoas caminham sem pressa, observam detalhes, conversam com expositores, lembram objetos da infância ou descobrem pela primeira vez algo que parecia pertencer apenas ao passado.
Em uma cidade reconhecida pela força do patrimônio histórico, a memória não está apenas nos museus ou prédios restaurados. Também acontece nas escolhas do cotidiano. O crescimento de feiras, brechós e espaços de consumo alternativo tem revelado uma nova forma de relação entre os pelotenses e a cidade. Cada vez mais, feiras e brechós têm transformado o antigo em experiência e feito do Centro um lugar de permanência, encontro e reinvenção.
O centro voltou a ser destino
Na Feira da Estação, realizada na Praça Coronel Pedro Osório e voltada ao empreendedorismo criativo, o objetivo sempre foi ocupar o espaço público de outra forma. Para a organizadora Silvia Oliveira, esse interesse está diretamente ligado ao momento contemporâneo. “Durante e pós a pandemia é notório e absurdo o consumo tecnológico, redes sociais e plataformas digitais…acredito que o interesse em comum pelo que é vivo, autoral, criativo e antigo vem aumentando muito e é uma tendência crescente entre as pessoas. A Feira da Estação é o respiro pra todos nós, tanto para quem cria, expõe e vende, como também quem vai passear, tomar mate, consumir, respirar”, conta.
Criada para ocupar espaços públicos com empreendedores locais, a Feira da Estação reúne artesanato, moda circular, brechós, alimentação e produção criativa. Ao longo de mais de 70 edições, tornou-se também um ponto de encontro. “Antes, a praça era passagem para cortar caminho. Hoje as pessoas saem de casa para visitar a feira, atraímos também pessoas que não tinham contato com a área criativa e empreendedora da cidade, assim como também pessoas de todas as idades, a Feira da Estação é totalmente diferente do comum, trazemos empreendedorismo, cultura, criatividade e uma área de moda circular enorme”, comenta a organizadora.
Entre o garimpo e o pertencimento
Para quem frequenta as feiras, o principal atrativo nem sempre está no produto. A designer Angélica Knuth conta que começou a visitar os eventos quase por acaso, em encontros com amigas para tomar café na região central. O hábito acabou mudando sua relação com a cidade. “Todas nós temos interesse por artes manuais e roupas com custo benefício, então desde lá, sempre que possível, quando nos encontramos para nosso café, aproveitamos também para passar na feirinha que está acontecendo na praça central. Mas ocorre também de sabermos de alguma feira que está para acontecer e também nos programarmos para prestigiá-la”, afirma.

Para ela, comprar nesses espaços é diferente de consumir em lojas ou pela internet porque existe contato direto com quem produz. “Muitas bancas são de empreendedores/artesãos locais que expõem produtos exclusivos e únicos. E no caso dos brechós e antiquários, muitas vezes os produtos têm qualidade melhor e preço mais acessível”, diz.
Angélica também percebe um movimento crescente de valorização do artesanal e do que carrega identidade. “E justamente por criar trabalhos tão parecidos com os outros, acredito que o artesanal vem, aos poucos, sendo mais apreciado e consumido, pois cada peça é única e pensada por alguém. Em um mundo onde tudo é igual, buscamos cada vez mais aquilo que é exclusivo e único”, fala.
O antigo como linguagem do presente
O crescimento do interesse por peças antigas também aparece no universo da moda. A criadora de conteúdo Mariana Coreixas acompanha esse movimento tanto como consumidora quanto como influenciadora digital voltada para moda e brechós. Para ela, peças vintage e brechós fazem parte da construção da própria identidade há muitos anos. “Achava incrível a possibilidade de usar coisas de outra época, que estavam em boas condições e iriam acrescentar um toque muito legal no meu estilo”, relembra.
Com o tempo, o interesse estético ganhou novos significados. “O consumo em brechós entrou na minha vida por um interesse estético que, com os anos, foi me mostrando as questões sustentáveis, tanto pro planeta, quanto pro bolso, além da busca por entender a matéria prima das coisas e assim priorizar consumir o que tem qualidade”, conta.
Mariana conta que uma das peças mais importantes que guarda hoje surgiu após transformar uma calça do avô em saia. “Saber que estou usando algo que ele usava, que tem muito dele ali, mas que agora também tem um pouco de mim, ou que tenho uma peça que já viveu histórias em outras casas e que agora faz parte da história da família que eu estou construindo, é muito especial”, relata.
Para ela, preservar memória também acontece nas escolhas diárias. “Acho que a única forma de preservar a memória é através do que a gente escolhe cultivar e não apagar totalmente. É como falam que as gerações atuais só vão deixar de herança móveis brancos de MDF e por isso é tão importante buscar preservar detalhes, personalidade, cultura e manter viva toda nossa história, seja através de itens que já eram da nossa família ou os que já viveram outras histórias antes de serem nossos. É urgente consumir de segunda mão, seja pro planeta ou pra memória. Sem falar que esse tipo de programação acaba levando cada vez mais pessoas às ruas, vivendo a cidade e apoiando o que é local”, conclui.
Objetos que continuam contando histórias
No Mercado das Pulgas, um dos espaços mais tradicionais desse universo em Pelotas, objetos mudam de dono, mas nem sempre deixam suas histórias para trás. Na Karina Antiguidades, negócio familiar iniciado em 2014, tudo começou com a restauração de uma máquina Singer antiga. O interesse inesperado levou Magali, Francisco e sua filha Maria Rita Bednarski a mergulharem no universo das antiguidades.
Hoje, segundo Maria, o público mudou. “Antigamente, as antiguidades eram procuradas principalmente por colecionadores e apreciadores desse universo. Hoje, o público é muito mais amplo. As peças deixaram de interessar apenas a um público específico e passaram a fazer parte do dia a dia de pessoas de diferentes idades e estilos, seja para decoração, coleção ou uso”, conta.

Segundo a família, quem compra uma peça antiga geralmente procura mais do que utilidade. “Acreditamos que cada pessoa tenha uma motivação diferente, mas a exclusividade acaba sendo um ponto em comum. Quem compra uma antiguidade leva para casa uma peça única, com características e história próprias. Também percebemos uma valorização cada vez maior da qualidade e da durabilidade. Muitas dessas peças atravessaram décadas e continuam cumprindo sua função, o que mostra um cuidado e uma qualidade de fabricação difíceis de encontrar atualmente.
Os administradores explicam que muitas peças fizeram parte da história de famílias da cidade e região. “Quando esses objetos são preservados, uma parte dessa história também é preservada. Além disso, Pelotas é uma cidade com um patrimônio histórico muito rico, e acredito que valorizar as antiguidades também é uma forma de manter viva a ligação com o passado e com a identidade da nossa cidade”, ressaltam.
A família acredita que preservar objetos também ajuda a preservar a cidade. “O Mercado das Pulgas tem um papel muito importante porque é uma vitrine para esse universo. Muitas pessoas passam por ali sem necessariamente estarem procurando uma antiguidade e acabam despertando interesse pelas peças e pelas histórias que elas carregam. Além disso, é uma oportunidade de ver os objetos de perto, tirar dúvidas e conversar com os expositores. Muitas vezes, esse primeiro contato faz com que as pessoas passem a olhar para as antiguidades de uma forma diferente”, relatam.
O que nunca deixou de existir
Fundador da Mondo Rosso Discos e um dos idealizadores do Mercado das Pulgas em Pelotas, James Stahl acompanha há décadas as mudanças culturais em torno do consumo musical. Ao contrário da ideia de retorno do analógico, ele acredita que o vinil nunca desapareceu.
Para ele, o interesse atual está menos ligado à nostalgia e mais à experiência. “Existe um lado das pessoas que ama esse tipo de sentimento e emoção, que somente algo mais único causa, algo que não seja feito para usar e descartar, coisas mais permanentes”, aponta.
James também defende que lugares como o Mercado das Pulgas cumprem uma função urbana e cultural. Segundo ele, esses espaços aproximam pessoas de objetos, histórias e formas diferentes de consumir.



