Sharenting: quando o amor dos pais vira exposição digital

Paulo Charqueiro (Foto: Divulgação)

Vivemos tempos em que a infância deixou de ser um território reservado à intimidade familiar e passou a ocupar vitrines digitais. O fenômeno conhecido como sharenting — junção de “sharing” (compartilhar) e “parenting” (cuidado parental) — escancarou a vida de crianças nas redes sociais, muitas vezes sob o pretexto de orgulho, afeto ou simples hábito. Mas será que estamos realmente protegendo aqueles que mais amamos?

A Comissão Nacional de Informática e Liberdades da França (CNIL) alerta: publicar imagens de menores em redes sociais, especialmente em perfis públicos, pode colocar em risco sua segurança, privacidade e dignidade. E não se trata de exagero. A internet não esquece, não perdoa e, infelizmente, não protege.

Fotos aparentemente inocentes podem ser desviadas para fins criminosos, como a criação de deepfakes ou a circulação em redes de pornografia infantil. Metadados revelam localização, rotina e interesses. E a reputação digital — construída sem o consentimento da criança — pode se tornar um fardo no futuro, afetando relações sociais, oportunidades profissionais e até a saúde mental.

É preciso repensar. O que hoje parece uma lembrança carinhosa pode se transformar em uma exposição indesejada. A CNIL recomenda práticas simples: compartilhar imagens por canais privados, obter o consentimento da criança e do outro genitor, ocultar rostos, revisar configurações de privacidade e, quando necessário, exigir a exclusão de conteúdo.

Mais do que medidas técnicas, trata-se de uma mudança de postura. As crianças têm direito à privacidade, à proteção de sua imagem e à construção de sua própria identidade.

A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei Geral de Proteção de Dados são claros nesse sentido.

Ademais, recentemente, entrou em vigor o chamado Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, reforçando a proteção de nossas crianças e adolescentes no ambiente digital.

Não é sobre censura, é sobre responsabilidade. Amar é proteger, inclusive do mundo digital. Cabe aos pais refletirem: estamos compartilhando memórias ou entregando nossos filhos ao julgamento público? Estamos celebrando a infância ou comprometendo seu futuro?

A tecnologia é uma ferramenta poderosa — e como tal, exige sabedoria. Que o amor não se confunda com vaidade. Que o cuidado não se perca na busca por curtidas. E que a infância, esse território sagrado, continue sendo vivida com liberdade, segurança e respeito.

Paulo Charqueiro
Promotor de Justiça aposentado.