Desde o segundo ano de Medicina, com a finalidade de aprender habilidades não ensinadas na faculdade, e também para reforçar o orçamento, trabalhei como interno em um Pronto Socorro da Capital.
Interno é aquele estudante de Medicina que vai junto com o médico, dirigindo a ambulância para atender aos chamados. Faz injeções, afere a pressão, faz curativos, atende o telefone, verifica o endereço dos chamados, atende a porta e cobra os honorários.
Além disso, faz em dupla com outro interno as remoções de pacientes que não necessitam acompanhamento médico.
Também, busca de ambulância as refeições encomendadas pelos médicos, claro, de preferência com a sirene aberta.
O grande barato era dirigir a ambulância, regalia reservada aos internos mais experientes.
Assim é que fui escalado, junto com um interno neófito, para fazer a remoção de uma parturiente para o Hospital Conceição. Ao chegarmos ao endereço, nos aguardava um jovem casal. Sofia, uma polaquinha esguia de olhos azul piscina, cabelos loiros presos na nuca e sardas na cara. Rafael parecia o irmão mais velho de Sofia. Via-se de cara que esperavam o primeiro filho.
Rompera a bolsa e precisavam de remoção para o Hospital. Sofia, controlada, só deixava transparecer a ansiedade nas gotículas de suor de sua fronte. Rafael não escondia nem controlava a excitação, como todos os maridos nessa situação.
Acomodamos o casal, ela deitada na maca e ele sentado na cadeira segurando ternamente a sua mão.
Poucas palavras trocamos no caminho, irmanados na expectativa da magia do que estava por acontecer.
Chegados ao Hospital, os acompanhamos até a Maternidade e nos despedimos desejando-lhes um bom parto.
Ao voltar para a ambulância, o neófito tinha se aboletado na direção, se dizendo apto à função. Enquanto ele dirigia pela avenida Assis Brasil, eu divagava imaginando o parto de Sofia. Havia um carro mais lento pela pista da esquerda e o colega queria ultrapassar.
Se aproximou pela direita e abriu a sirene. Na mesma hora, o carro foi abrir caminho indo para a direita e meio que nos fechou. O neófito, assustado, desviou para o canteiro central ao mesmo tempo que afundava o pé no acelerador. Começou, então, a andar em ziguezague, cada vez mais rápido, pois nunca tirou o pé do acelerador até que perdemos a aderência e começamos a capotar.
Não havia cinto de segurança na época. Tentei me segurar no “putamerda “, mas no primeiro impacto fui arremessado para trás. Enquanto capotávamos, eu batia com a cabeça em todos os lugares possíveis. Neste instante, juro que vi o nascimento do filho de Sofia.
Até que tudo parou.
Terminei junto com a maca e a cadeira de rodas com as pernas para o ar. Girei as pernas e emergi das entranhas da Kombi, saí pela porta lateral caindo na calçada.
A Kombi parou ancorada em um poste de luz do qual pendiam os fios e vazava gasolina.
Num autoexame rápido vi que sangrava do cotovelo e respirava com dor. Meu neófito colega barbeiro saiu incólume.
E eu tive que ir ao Pronto Socorro Municipal levar pontos e fazer radiografia do tórax, que, felizmente, nada de grave revelou.
No dia seguinte, comprei a Última Hora para ver no jornal o relato do acidente. Lá estava a foto da ambulância ancorada no poste e a notícia: acidente sem vítimas fatais.
Na página ao lado havia uma participação:
Sofia e Rafael participam a todos o nascimento de seu primogênito Antônio. E assim a vida nasce e renasce…
Ciro José Mombach
Médico
(53) 99982-3387



