Duplipensar e o coerentismo: a influência e o poder das crenças contraditórias sobre a tomada de decisão no âmbito empresarial

Louise Azevedo Moscareli, advogada.

Por Louise Azevedo Moscareli, advogada.

Os seres humanos passam boa parte do seu dia envolvidos na tomada de decisões. No entanto, nem todos eles são tão determinantes no sentido de movimentarem frequentemente montantes expressivos de dinheiro, grandes volumes de carga ou de impactarem a vida de várias pessoas que, direta ou indiretamente estão a eles relacionadas, seja como colaboradores, clientes, fornecedores, sócios ou familiares seus, ou de qualquer um dos citados.

É por isso que pretendemos abordar a questão dos efeitos do duplimensamento1, sobre os gestores, como a possibilidade apontada por George Orwell em sua obra 1984, de se acreditar em duas crenças contraditórias, ao mesmo tempo, e como se dá a aplicação do coerentismo2, diante disso, para que suas decisões, seu posicionamento e para que a cultura empresarial seja levada a sério, como algo que faça sentido pelos stakeholders3.

Importa ressaltar que o sistema humano de crenças costuma buscar um alinhamento e se pautar pelo senso de coerência, a fim de que as argumentações e as decisões possam fazer sentido lógico e que, a partir daí, possa haver um senso de confiança e de continuidade nas relações. No que se refere aos ambiente empresarial e, especialmente no que concerne aos gestores, isso importa ainda mais, em virtude dos frequentes acordos, contratos, ajustes e promessas que exigem confiança e alinhamento nas transações envolvendo outras pessoas, para que os objetivos sejam alcançados.

Naturalmente, é comum de acontecer que elementos internos ou externos interfiram entre aquilo que se pensa e o que se faz. No entanto, ainda que o comportamento possa divergir do conteúdo manifesto pelo pensamento, como apontado pela dissonância cognitiva e pela acrasia, até o advento do duplimensamento de Orwell, sustentava-se a impossibilidade de se acreditar numa ideia e no seu oposto, ao mesmo tempo. Para compreender a diferença entre esses elementos citados, importa esclarecer como eles se dão.

Dissonância cognitiva ocorre quando há uma incoerência entre o que se acredita ser certo e aquilo que é praticado, portanto ocorre divergência entre pensamento e ação. Acrasia ocorre quando há falta de autodomínio, ou seja, o indivíduo contraria seu melhor juízo sobre que atitude tomar em dada situação, também revelando uma antítese entre pensamento e ação. Já o duplipensamento, por sua vez, é um conflito que se opera exclusivamente no âmbito no pensamento. O indivíduo mantém no seu sistema de crenças duas convicções opostas, nas quais não só acredita como sustenta ao mundo como verdade.

Longe de propugnar pela defesa ou atenuação das figuras da dissonância cognitiva e da acrasia, eis que ambas levam à distorção dos efeitos esperados no mundo e de uma espécie de traição das expectativas, é exatamente a diferença entre essas figuras que faz com que o duplipensamento pareça ser mais maléfico e menos justificável. Se na dissonância cognitiva e na acrasia o problema se dá entre o pensamento e a ação, elementos de ordem prática podem justificar a incapacidade ou impotência de se atuar de forma compatível com o pretendido.

Já na figura do duplimensar, ocorre a manutenção simultânea de duas convicções incompatíveis que são levadas em prática conforme a sua conveniência. Dessa forma, o impacto de nunca saber o que se esperar daquele que tem como base o exercício do duplipensamento é pernicioso, na medida em que essa contradição gera incompreensão e falta de confiança, especialmente no que concerne aos relacionamentos de trato frequente e contínuo.

Trazendo para o objeto da nossa abordagem que é o contexto empresarial e, em especial os gestores e, tendo em vista que, como todos, eles são sujeitos cognitivos que possuem suas próprias crenças, as quais determinam sua forma de agir, atuando fortemente nas tomadas de decisão com relação aos seus negócios e com as pessoas, importa evidenciar os contornos manipulatórios que o duplimensamento gera.

Conforme dito, duplipensar significa ter a capacidade de abrigar na mente duas crenças contraditórias e acreditar em ambas simultaneamente. Envolve saber em que direção as próprias memórias precisam ser alteradas e, em consequência, significa ter consciência de que se está manipulando a realidade, ao mesmo tempo em que o exercício do duplipensamento também leva ao convencimento de que a realidade não está sendo violada.

Isso porque da mesma forma que este processo precisa ser consciente, caso contrário não seria conduzido de forma precisa, também deve ser inconsciente, senão geraria uma sensação de falsidade. Em termos práticos, implica em duplipensamento a prática simultânea de negar e afirmar a existência da realidade objetiva; mentir deliberadamente ao mesmo tempo em que se acredita genuinamente na mentira; esquecer aquilo que tenha ficado inconveniente e voltar a lembrar somente porque foi exigido pelas circunstâncias, enquanto isso se fizer novamente necessário.

Nas práticas organizacionais equivale a julgar bem e mal determinadas pessoas pelos mesmos aspectos ou características; validar resultados para aumentar metas mas negá-los para não ter que pagar premiação, aumento ou comissão; contratar determinadas pessoas em razão de suas características e negá-las ao mesmo tempo; julgar o mesmo resultado de forma totalmente distinta conforme o ouvinte e o discurso que pretende usar.

Esses exemplos envolvem questões ligadas a relacionamento. Entretanto, a confusão e a falta de coerência causada pelo duplipensar podem afetar, também, as crenças ligadas ao conhecimento, levando à defesa de entendimentos confusos e posicionamentos omissos, indefinidos ou contraditórios, implicando na falta ou dificuldade de tomada de decisão e em resultados ruins ou inexpressivos.

Coerentismo

O duplipensamento ataca a concepção de conhecimento o qual é definido como um conjunto de crenças verdadeiras justificadas. Isso porque, para se chegar ao conhecimento é necessário acreditar em algo em que se crê que seja verdade, além de poder justificar ou provar que, de fato, isso se trata de uma verdade, o coerentismo é uma das teorias da justificação da verdade, ou seja, é um modelo epistemológico eficiente, no que concerne à justificação de crenças, na medida em que, para essa concepção, uma crença se justifica quando se harmoniza com um sistema coerente, como um todo, ou seja, quando faz parte de um conjunto de crenças que possui consistência lógica.

Em outras palavras, o duplipensamento contraria o coerentismo, eis que, para este, uma crença estará justificada se ela for lógica ou estiver em conformidade com um sistema coeso de crenças, proposições, suposições, testemunhos e recordações. Ou seja, a crença precisa ser coerente com um sistema lógico para poder ser digna de fundamentar ou embasar um conhecimento.

O coerentismo é uma teoria significativa porque está relacionada à forma com que a terapia cognitiva aborda a questão das crenças, no que tange à confiabilidade ou não das mesmas. Isso importa eis que, em geral, os métodos utilizados no sentido de se identificar as crenças advêm da terapia cognitiva, possibilitando que sejam analisadas como as mesmas influenciam no processo decisório dos gestores, sua efetividade, e como a informação e o conhecimento são capazes, ou não, de subsidiar o processo de tomada de decisão.

De fato, os homens examinam seus julgamentos sobre uma questão específica, procurando sua coerência com as crenças que possuem sobre casos semelhantes e sobre crenças a respeito de uma gama mais ampla de questões morais e factuais. Busca-se, com essa prática cotidiana, um equilíbrio entre essas várias crenças, como forma de auxiliar o indivíduo a saber o que deve fazer. Essa prática serve, também, para dar segurança, na medida em que, por meio da coerência, os seres humanos conseguem se convencer de que suas conclusões fazem sentido e, portanto, são justificáveis e, consequentemente, aceitáveis.

Convém ressaltar, entretanto, que a coerência pode estar relacionada à justificação ou à verdade, ou seja, a análise da coerência do conjunto de crenças versa somente sobre o sentido lógico das mesmas, se elas são coerentes entre si, entretanto isso não implica necessariamente em afirmar que há verdade ou em autenticar o conteúdo daquele conjunto de crenças4. Mesmo assim, a teoria coerentista é relevante, já que serve para questionar e enfraquecer toda a estrutura de crenças disfuncionais e contraditórias que afetam o comportamento humano, residindo, neste aspecto, ao que parece, sua grande importância.

CONCLUSÃO

Considerando os efeitos danosos da manutenção do exercício do duplimensamento, no ambiente empresarial, especialmente por parte dos gestores, é de fundamental relevância estabelecer critérios que inibam esse tipo de prática a partir da própria percepção de sua ocorrência. Nesse aspecto, se a terapia cognitiva é eficiente para analisar as crenças, a teoria epistemológica do coerentismo é essencialmente importante na busca pelo conhecimento e na análise da estrutura do conjunto de crenças, a fim de justifica-las e, assim, afastar as crenças opostas, impedindo, dessa forma, a possibilidade do duplipensamento, na medida em que isso implica na manutenção de crenças disfuncionais, dentro do mesmo conjunto de convicções.

1 O termo “duplipensamento” surgiu com o livro “1984” de George Orwell o qual foi publicado originalmente em 1949. Trata-se de um dos romances mais influentes do século XX e um inquestionável clássico moderno por se tratar de é uma distopia futurista.

2 O coerentismo é uma teoria desenvolvida a partir dos estudos de Francis Bradley (1846– 1924) e Brand Blanshard (1892-1987) inicialmente com a pretensão de determinar a verdade a partir da coerência entre grupos de crenças coerentes entre si e posteriormente limitando a questão da coerência somente na estrutura lógica das mesmas, sem se preocupar se as mesmas se relacionam com a verdade, bastando que sejam coerentes entre si.

3 Conceito criado pelo filósofo americano Robert Edward Freeman para designar qualquer indivíduo, organização ou parte interessada que, de alguma forma, é impactado pelas ações de uma empresa.

4 A teoria coerentista acabou sendo criticada como uma forma de idealismo pelo fato de ter se limitado a analisar a relação de coerência entre o conjunto de crenças sem se preocupar se elas correspondem com a verdade dos fatos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COITINHO,   Denis.   Moralidade,   justificação   e   coerência.    Revista Kriterion vol.56 no.132, Belo Horizonte, jul./dez. 2015.

Knapp, P., e Beck, A. T.. Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Revista brasileira de psiquiatria, 30, Supl. II, 54- 64, 2008

ORWELL, George. 1984. tradução Alexandre Hubner, Heloisa jahn; posfácio Erich Fromm, Ben Pimlott, Thomas Pynchon. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Varela, F. J., Thompson, E., e Rosch, E. A mente corpórea: ciência cognitiva e experiência humana. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

Usher, M. et al. Dynamics of decision-making: from evidence accumulation to preference and belief. Frontiers in pychology, 18e 758. 2013. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2013.00758

Ventura, R. C. M. O., e Nassif, M. E. Gestão de pessoas e suas relações com o compartilhamento da informação no contexto organizacional. Informação & sociedade, 26, 1-20, 2016.

Vergara, S. C. Razão e intuição na tomada de decisão: uma abordagem exploratória. Revista de administração pública, 25(3), 120-138, 1991. Recuperado de http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rap/article/view/8941

Wilson, T. D. Information behavior: an interdisciplinary perspective. Information processing & management, 33(4), 551-572, 1997. Recuperado de http://www.informationr.net/tdw/publ/papers/1997IP&M.pdf

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome