Tramandaí

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Nos anos 1960, as férias escolares iam do Natal até março. Ansiosamente aguardadas, significavam ir para a praia e lá ficar por dois meses. Tínhamos uma casa em Tramandaí e era nela que desfrutávamos as férias. Ficava a oito quadras do mar e, pela manhã, se formava o séquito rumo ao mar. O pai e a mãe iam na frente e atrás seguiam de 4 a 6 crianças e pré-adolescentes. Havaianas ainda não existiam e o cascão do pé é que garantia imunidade contra as pedrinhas do caminho e a areia quente.

Cada um carregava alguma coisa. A mim tocava o guarda sol tamanho família feito de madeira e lona e pesando quase uma tonelada. Cadeiras só para o pai e a mãe, eram de ferro e lona e também pesavam muito. Para o resto da turma, uma esteira de palha gigante.

Montávamos nosso acampamento e ali ficávamos até por volta das 13h. Ainda não existia protetor solar; o Eversun só apareceu anos mais tarde. Banho de mar chocolatão, cuja cor na época se atribuía a muito iodo na água, que faria bem a saúde. Caminhávamos até a foz do rio Tramandaí para ver os pescadores pegando tainha de tarrafa acompanhando o movimento dos botos.

Depois do almoço, meu irmão e eu, os mais velhos da família, íamos até a ponte, pulávamos por cima da amurada e nos instalávamos nos pilares para a pescaria da sardinha; feita com vários anzóis brilhantes sem isca em uma só linha. O movimento e o brilho dos anzóis atraíam as sardinhas e, às vezes, vinham até duas em uma só puxada. A pesca na época era farta e voltávamos com um balaio cheio de sardinhas. Ao anoitecer, a família caminhava até o Centro para um chope com pastel de siri na taverna do Willy, às vezes, seguida de um sorvete na Cremolatto. De noite, tratar das queimaduras com compressas de vinagre no corpo e Hipoglós no rosto.

Quarta-feira de Cinzas, em 1967, passeávamos à beira mar, meu irmão e eu, quando um avião que sobrevoava a praia nos chamou atenção. Vinha em voo rasante ao mar, em direção à praia. E veio baixando e baixando em nossa direção tanto que nós dois nos abaixamos. Quando passou por nós ouvimos um ta ta ta e um baque surdo a nos virarmos. O avião tinha caído e na queda atropelara vários banhistas. Começou a pegar fogo e os banhistas tentaram apagar as chamas jogando água do mar, sem sucesso. Víamos dentro do avião gente se mexendo tentando sair. Até que houve uma explosão e o fogo tomou conta de tudo e não vimos mais ninguém. Picapes para transportar os feridos, bombeiros e a multidão nos impediram de acompanhar o resto da tragédia. A contagem posterior de vítimas 10 mortos e sete feridos dão a real dimensão do funesto acidente.

Continuamos a veranear em Tramandaí e as imagens do acidente foram lentamente se desvanecendo, mas até hoje permanecem vivas em nossa memória.

Por Ciro J. Mombach

Médico