Dor, mágoa e perdão

Otávio Avendano (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Querido Leitor:

Por acaso já experimentaste dor emocional? E se eu me atrever a responder por ti? Eu diria que, além de a teres experimentado, muito provavelmente estejas carregando dor exatamente neste momento.

A dor faz parte da natureza humana e é decorrente de qualquer tipo de perda: perda de um ente querido, perda de alguma posição social, prejuízo financeiro, o sentimento de perda quando um filho vai embora de casa, perda ocasionada por uma separação conjugal, a frustração ao ver um colega galgar uma promoção que achas que deveria ser para ti…

O ser humano, depois de uma perda, atravessa essa espécie de dor e entra em um processo de luto, que pode durar mais ou menos tempo, conforme o tamanho da perda e é um processo absolutamente natural, que possui diferentes fases e deve ser respeitado. Na verdade, a dor forja caráter e dignidade no indivíduo e nas coletividades.

Ocorre que temos a tendência cultural da negação da dor. O processo natural da morte é assunto proibido, a sensação da ansiedade é logo abafada pelo uso indiscriminado de medicamentos (nunca se tomou tanto psicotrópico quanto nos dias de hoje…), um relacionamento encerrado dá logo lugar a outro, tudo para evitar a dor, de maneira que o leitor talvez, ao se deparar com a minha informação no início deste texto a tenha recebido com surpresa.

Essas atitudes não matam a dor, mas são paliativos que podem parecer eficazes. O fato é que carregamos pressões, depressões, ansiedades, mau humor e, muito especialmente, mágoa. A mágoa é o grande combustível da dor e não olhar para ela pode prolongar essa dor indefinidamente. A ciência já tem relacionado a mágoa ao desenvolvimento de diversas doenças, especialmente o câncer, e gera ressentimento, o que, conforme o próprio termo, nos faz sentir diversas vezes o acontecimento causador da dor, como se o ele se repetisse todos os dias aos nossos olhos. E assim o fazemos.

E como lidar com a mágoa? Mesmo sendo um sentimento resultado da frustração e completamente humano, o cultivo da mágoa pode ser prejudicial, trazendo uma sensação profunda de falência emocional. E quem sabe olhar para a virtude do perdão como um meio de quebrar esse ciclo e interromper de forma natural a dor? Já experimentou?

A ciência, assim como tem aliado a mágoa ao desenvolvimento de doenças, já considera o perdão como sendo uma questão de saúde pública, pois carregar a mágoa pode significar um acúmulo de peso que nós não precisamos carregar. Já não basta a ferida?

É importante considerar também que só nos magoa quem possui algum tipo de laço emocional conosco. Um estranho não pode nos magoar. Quem nos magoa é alguém próximo, um familiar, um amigo…

Mas o perdão não é um ato. É um processo. Conversar mentalmente com o ofensor pode ser um bom começo. É importante que percebamos que o perdão não significa livrar o ofensor das consequências do seu ato. Perdoar também não é esquecer, pois temos memória. Mas o perdão pode ser a ressignificação do fato, que nos permitirá começar um novo caminho (com ou sem o agente causador da mágoa) a partir não do acontecimento que gerou a dor, mas a partir da ressignificação dessa dor. Afinal de contas, não temos como evitar que as pessoas nos ofendam, até porque também podemos ofender.

Na verdade, ninguém completa bodas de ouro sem ter exercitado o perdão. Conviver significa ferir e ser ferido. O amor é resultado do que as pessoas constroem em seus relacionamentos, dores e superações, renúncias e doação. Caminhar junto significa que, em algum momento, um pode atrasar um pouquinho a marcha e ser amparado pelo outro. A natureza não dá saltos, construir um relacionamento de sucesso também não significa evoluir aos saltos. O “eu te amo” também significa que eu posso compreender tuas limitações e dar um limite mais digno e saudável a elas em mim.

Já experimentou acordar e perceber que a dor pode não ser o primeiro pensamento do teu dia? Começa a pensar em perdoar…

Otávio Avendano é educador, palestrante, formador de círculos de construção de paz e influenciador digital.

Instagram @otavioavendano 

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