Chegou a passos leves e silenciosos. Sem estardalhaço, sem pretensão maior a não ser a de marcar presença na manhã ensolarada como um pássaro pousando num galho de árvore.
De mansinho se foi insinuando pela casa em cada sala, corredor, escadarias da alma. E ano a ano se aquerenciou como se pertencesse aos relatos da minha história, protagonista de atos e fatos, de razão e sensibilidade.
Do nosso convívio de cinco anos, guardo boas lembranças, algum nervosismo, muitas expectativas, descobertas fantásticas, provas de um aprendizado constante na arte do bem querer.
O namoro teve seus altos e baixos, como é de praxe em casos amorosos. Ora o dia era cinzento, ora o sol brilhava embora sempre houvesse um olhar iluminado e cúmplice trocado nos intervalos em que ficávamos a sós.
Por incrível que venha a parecer, depois de muitas risadas e lágrimas num mútuo pacto estabelecido pela convivência, nossa despedida aconteceu. De comum acordo resolvemos dar um fim ao relacionamento. E ouso confessar que, no momento, foi um alívio. Apesar da saudade que veio substituir o vácuo criado entre nós, sabíamos que a solução de continuidade era inevitável.
Tomamos rumos diversos. A distância se estabeleceu com a força que dimensiona o tempo. Mas o amor permaneceu guardado em meu peito como um relicário precioso.
Sentimento que fica, que continua intocável por esses mistérios que escapam a toda e qualquer teoria. Na prática, acontece e pronto.
Passamos muitas décadas sem nos encontrarmos até o dia em que cruzei por ele na rua. Fiquei imóvel acariciando com meus olhos cada curva e contorno da sua beleza.
Nenhuma palavra foi dita, gesto algum se desenhou na paisagem. Só o canto de um bem-te-vi celebrou o reencontro. E que sensação deliciosa foi a de ouvir a sonora melodia de um pássaro comemorando e me dando boas-vindas.
O amor antigo estava frente a frente comigo, desarrumando memórias, desembrulhando emoções. Subi os degraus de mármore envelhecido e abri a porta de ferro envidraçada. O saguão estava intacto e idêntico. De repente, o som de vozes e de passos me trouxe de volta às recordações de um passado que se fazia presente. Dádivas que só o amor entende.
Caminhei pelos corredores, pelas salas de aula, pelo auditório, tocando nas paredes eretas com um sorriso na alma e a suavidade de quem nada quer despertar, basta o sentir.
O meu amor antigo não mudou. Permanece altaneiro incrustado no contorno da Praça Conselheiro Maciel. O meu amor antigo é o prédio da faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas.
Pela maneira com que me recebeu, o amor antigo é recíproco. E o bem-te-vi continuou cantando para arrematar com ternura o nosso momento.





