
A educação brasileira vive um momento de profundas transformações impulsionadas pelas novas tecnologias. Inteligência artificial, realidade virtual e plataformas digitais já fazem parte do cotidiano de milhões de estudantes, enquanto a escola ainda busca acompanhar esse ritmo. Nesse cenário, o arroio-grandense Francesco D’Avila, doutorando em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), desenvolve uma pesquisa que propõe um novo ambiente educacional capaz de integrar corpo, tecnologia e aprendizagem em uma sala de aula pensada para os desafios do século XXI.
Recentemente, D’Avila foi contemplado com uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para realizar parte do doutorado na Universidad de La Laguna, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha. A seleção ocorreu após um rigoroso processo interno da UFPR, que oferecia apenas uma vaga para o programa de doutorado-sanduíche.
Ao ser questionado sobre quem é Francesco D’Avila, ele prefere fugir das definições convencionais. “Eu poderia responder que sou professor, artista e pesquisador. Mas isso descreve o que eu faço, não quem eu sou. Prefiro dizer que sou um sujeito inquieto”, afirma.

Nascido em Arroio Grande, construiu sua formação em diferentes estados brasileiros antes de chegar ao doutorado. Graduou-se em Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 2015, tornou-se mestre em Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, posteriormente, direcionou sua carreira para a Educação.
Foi justamente a experiência como professor da rede estadual de Minas Gerais, onde atuou durante cinco anos, que despertou o interesse em aprofundar os estudos sobre o ambiente escolar. A pandemia de Covid-19 e a rápida expansão das tecnologias digitais intensificaram uma inquietação que se transformou na principal questão de sua pesquisa: como a escola pode acompanhar uma sociedade em constante transformação tecnológica sem perder sua dimensão humana?
Apesar das experiências acadêmicas fora do município, D’Avila afirma que Arroio Grande continua ocupando um lugar central em sua trajetória. Uma das inspirações para sua tese surgiu a partir de um caderno produzido quando cursava a quinta série na Escola Municipal Silvina Gonçalves.
Intitulado Minha Vida, Meu Futuro, o trabalho reunia sonhos escritos aos 11 anos. Ao reler o material, encontrou frases que hoje simbolizam sua caminhada acadêmica: “Serei professor” e “Serei um grande universitário”. As anotações acabaram incorporadas à própria tese como um registro da construção dessa trajetória.
A ligação entre a cidade e sua pesquisa também se consolidou na prática. Após concluir a graduação, D’Avila retornou a Arroio Grande para desenvolver o projeto Respiradores na escola onde estudou. A iniciativa utilizava arte performática e materiais recicláveis para estimular reflexões sobre questões ambientais e resultou em intervenções artísticas realizadas por estudantes nas ruas da cidade.
A experiência tornou-se uma das primeiras demonstrações daquilo que mais tarde seria um dos pilares de sua pesquisa de doutorado: aprender por meio da criatividade e da interação entre corpo e ambiente.
Atualmente, boa parte da pesquisa também é desenvolvida em Arroio Grande, onde o pesquisador realiza levantamento de dados junto a professores da rede estadual do Rio Grande do Sul.
“Arroio Grande não só exerceu influência na minha trajetória. Ela continua exercendo. É meu ponto de refúgio, onde estou perto da família, dos amigos e desenvolvendo parte importante desta pesquisa”, destaca.
Um doutorado que rompe fronteiras
Desde o início do doutorado, em 2024, D’Avila recebe bolsa do Programa de Excelência Acadêmica (PROEX/CAPES), que lhe permite dedicação exclusiva à pesquisa. Em 2025, participou de uma missão acadêmica no Chile, realizando atividades na Universidad de Chile e na Pontificia Universidad Católica de Chile.
Poucos meses depois, conquistou a vaga para desenvolver parte da pesquisa na Universidad de La Laguna, na Espanha. A escolha ocorreu após contato com a professora Carina Soledad González González, pesquisadora reconhecida internacionalmente nas áreas de educação, engenharia da computação e tecnologias educacionais.
Durante seis meses, D’Avila participará de grupos de pesquisa, seminários e eventos científicos, além de aperfeiçoar o protótipo que constitui o principal produto de seu doutorado.
“É o reconhecimento da relevância da pesquisa. Vou ampliar o diálogo com pesquisadores de outro contexto, conhecer novas perspectivas sobre educação e trazer contribuições que poderão enriquecer futuras pesquisas no Brasil”, esclarece.

Uma escola pensada para o futuro
O principal eixo da pesquisa é o desenvolvimento de um novo ambiente de aprendizagem denominado Sala de Aula Ciborgue, conceito que busca integrar educação, tecnologia e experiência humana.
Apesar do nome remeter à ficção científica, o pesquisador esclarece que a proposta não envolve pessoas “metade humanas, metade máquinas”.
“Quando utilizo esse termo, não estou falando de pessoas com implantes tecnológicos, mas de compreender a tecnologia como uma extensão das capacidades humanas. A sala de aula ciborgue seria um ambiente pensado para integrar corpo, tecnologia e aprendizagem de forma crítica, ética e criativa”, explica.
Segundo D’Avila, a ideia nasceu da observação do cotidiano escolar durante os anos em que atuou como professor. “A escola ainda responde, em grande medida, a um modelo pensado para os desafios do século passado, enquanto a sociedade e as formas de aprender passaram por profundas transformações.”
Para o pesquisador, o ambiente escolar historicamente privilegiou a transmissão de conteúdos, deixando em segundo plano aspectos como criatividade, sensibilidade, interação e experiências corporais. A partir dessa reflexão, passou a estudar conceitos ligados à cognição encarnada, corrente científica que compreende o conhecimento como resultado da interação entre mente, corpo e ambiente.

Construção conjunta
Para desenvolver o conceito da Sala de Aula Ciborgue, D’Avila realizou uma pesquisa nacional envolvendo professores das redes estaduais de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal. A iniciativa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Ciências Humanas da UFPR e autorizada pelas Secretarias Estaduais de Educação.
O levantamento busca compreender tanto a infraestrutura tecnológica das escolas quanto a percepção dos docentes sobre novos ambientes de aprendizagem. Mais do que responder questionários, os participantes foram convidados a imaginar como utilizariam um espaço como o proposto na tese.
“Eu não queria construir um protótipo apenas a partir da minha visão como pesquisador. Era fundamental ouvir quem vive diariamente o processo de ensinar e aprender. São os professores que conhecem as potencialidades, as limitações e as necessidades reais da escola”, explica.
As contribuições revelaram preocupações recorrentes entre os educadores. Uma delas é a inclusão. Professores da educação especial apresentaram sugestões para que o ambiente contemple estudantes cegos, surdos e pessoas com limitações de mobilidade, garantindo que a inovação tecnológica seja acompanhada por acessibilidade.
Outro aspecto destacado foi a necessidade de formação continuada. Embora exista interesse em incorporar novas tecnologias ao cotidiano escolar, muitos docentes apontam que ainda faltam oportunidades de capacitação para utilizar esses recursos de forma pedagógica.
As sugestões recebidas já estão sendo incorporadas ao protótipo em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o pesquisador ressalta que pensar em inovação também exige enfrentar desafios históricos da educação brasileira, como as desigualdades de acesso à internet e à infraestrutura tecnológica. Sem essas condições, observa, muitos recursos acabam sendo utilizados apenas como instrumentos complementares, sem provocar mudanças efetivas no processo de aprendizagem.
Etapas futuras
Nos próximos meses, D’Avila embarca para a Espanha, onde permanecerá durante seis meses desenvolvendo parte da pesquisa na Universidad de La Laguna. O período será dedicado ao aprofundamento do referencial teórico da tese, ao aperfeiçoamento do protótipo tridimensional da Sala de Aula Ciborgue e à participação em grupos de pesquisa, seminários e eventos científicos.
Além do intercâmbio, artigos derivados da pesquisa já foram aprovados para apresentação em congressos realizados em Madri, na Espanha, e em Coimbra, Portugal.
Para o pesquisador, a experiência internacional representa a oportunidade de ampliar redes de colaboração e trazer ao Brasil conhecimentos produzidos em outros contextos educacionais.
“Estar inserido em outro sistema educacional vai me permitir observar diferentes práticas, estabelecer parcerias e trazer contribuições que poderão enriquecer não apenas a minha tese, mas também futuras pesquisas desenvolvidas no Brasil”, afirma.



