Deu Espanha
Terminou a Copa do Mundo de 2026. Decepção total para os brasileiros — embora a morte já estivesse anunciada desde as eliminatórias, quando a classificação veio na rabeira, em quinto lugar. Como já frisei, até acho que fomos longe demais.
Enquanto a CBF não apresentar um projeto sério, contínuo e sustentado nas seleções de base, a sexta estrela continuará distante. Alemanha, França e, agora, Espanha colheram justamente o que plantaram: formação, método, continuidade e identidade de jogo. A Espanha foi a melhor equipe da Copa do início ao fim e mereceu o título — com um gostinho especial para nós, brasileiros, por ter sido contra os nossos eternos rivais argentinos.
Copinha Dunga
O G.E. Brasil recebe hoje, no dia de fechamento desta edição, o Gramadense para decidir o campeão da Copinha. Independentemente do resultado — e espero que a gente consiga o bicampeonato —, a hora de dispensar o Seu Aquino será ao término do jogo.
Não me parece o treinador adequado para encarar uma segunda divisão. No Gauchão raiz, onde o jogo é pesado, curto e muitas vezes decidido mais na casca do que na prancheta, ele tende a patinar. Pode até voltar para Santa Catarina com o dever cumprido na base, mas o desafio que vem pela frente exige outro perfil. Ainda assim, como diz o Montanelli, espero botar a faixa no peito e a taça no armário.
E vem aí o pitaco do Rogério
Depois da Copa, sempre aparece alguém para repetir que futebol e política não devem se misturar. A frase parece inocente, mas não é. Na prática, talvez seja a política mais eficiente que o esporte produz: aquela que se apresenta como neutralidade.
Separar o estádio da rua é um gesto ideológico decisivo. Protege quem lucra com a partida e desarma quem só pode assisti-la. A Copa não nasce apenas da confraternização entre os povos; nasce também de um cálculo. Sediar 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México não foi simples escolha geográfica, mas uma decisão alinhada aos maiores mercados consumidores, aos contratos de transmissão mais rentáveis e ao poder de compra que move o espetáculo.
A bola rola, mas o que se movimenta em torno dela é capital em busca de valorização. Ingressos, pacotes turísticos, plataformas digitais, patrocínios, direitos de imagem, apostas, publicidade: tudo orbita o jogo antes mesmo de o juiz autorizar a saída.
O sistema não precisa de repressão permanente para funcionar. Funciona melhor com consentimento. “Não misture futebol com política” despolitiza o estádio e vende a ilusão de que, por noventa minutos, todos são iguais diante da bola. Não são. Há quem compre camarote, há quem compre camisa oficial, há quem parcele ingresso, há quem assista de longe, há quem trabalhe para que o espetáculo aconteça e há quem decida quanto vale cada uma dessas posições.
O aparelho esportivo ainda aprendeu a absorver a crítica sem se transformar. Faixas, camisas, homenagens simbólicas, campanhas institucionais: tudo pode entrar no roteiro, desde que nada altere a distribuição real de poder. O protesto vira conteúdo. A indignação vira peça de marketing. A rebeldia, quando domesticada, também vende.
Há uma lógica de classe nítida. Enquanto o espetáculo é calibrado para o mercado norte-americano, torcedores latino-americanos, africanos e árabes enfrentam barreiras que outros turistas raramente conhecem. No tabuleiro do futebol oficial, o Sul global fornece talento, mão de obra, paixão e audiência. Mas, quando chega a hora de deliberar sobre as regras do próprio jogo, quase sempre fica do lado de fora da sala.
Não é hipocrisia; é estrutura funcionando como deveria. A tragédia real é o consentimento. Uma classe trabalhadora multinacional veste a camisa, aplaude, vibra e aprende, no próprio estádio, a torcer contra o vizinho de arquibancada — nunca contra o sistema que organiza o placar e lucra com os dois lados da rivalidade.
O apito que encerra a partida não suspende a engrenagem da exploração; apenas assinala sua pausa técnica. Na manhã seguinte, sob o silêncio das arquibancadas vazias, o complexo industrial do esporte, as plataformas digitais e as corporações transnacionais seguem exigindo o mesmo corpo que, na véspera, gritou gol.
*Rogério Peres, publicitário, cineasta e cientista político (interino)




