
Já faz quase um ano que levantar cedo para ordenhar as vacas deixou de ser uma tarefa extenuante na propriedade da família Buss, em Turuçu, que se dedica à atividade leiteira há mais de 60 anos. Tudo o que o produtor Paulo Renato Buss e os filhos, Renato e Marcos, precisam fazer ao acordar é dar uma espiada no monitor das câmeras do galpão das vacas, instalado na parte térrea da casa, em frente à mesa do café da manhã, para verificar se tudo está ocorrendo conforme o planejado.
A ordenha propriamente dita fica por conta de um robô, um sistema automatizado que substitui a mão humana. As vacas se apresentam espontaneamente para o serviço, chegando, inclusive, a formar filas na entrada da baia. Lá dentro, recebem um estímulo extra: uma refeição balanceada preparada especialmente para esse momento, além de um tratamento diferenciado, com direito a banho e massagem no úbere, realizados pelo equipamento. Cada ordenha leva, em média, de três a dez minutos por animal. A produção da propriedade gira em torno de 1,9 mil litros de leite por dia e cerca de 53 mil litros por mês.

A limpeza rigorosa não representa apenas um cuidado com os animais. Ela garante a higiene e a qualidade do leite, além de prevenir contaminações e doenças como a mastite, uma das enfermidades mais comuns e de difícil tratamento em vacas leiteiras. Um sensor infravermelho permite ao robô posicionar as teteiras da ordenhadeira com precisão, proporcionando conforto ao animal durante a ordenha.
Todo o leite extraído é armazenado separadamente e enviado diretamente para um tanque de resfriamento autolavável, com capacidade para seis mil litros, fechado hermeticamente, evitando qualquer contato humano com o produto. Os resíduos de leite misturados à água utilizada na limpeza são direcionados para um tanque separado e descartados.
Tecnologia e tradição andam juntas
Robô e vacas mantêm uma interação harmoniosa, sem conflitos, proporcionando aos animais uma “vida de rainhas”, como define o próprio produtor. Tudo começou durante uma visita dos filhos, Renato e Marcos, à Expointer, quando conheceram a tecnologia e lançaram ao pai o desafio de implantá-la na propriedade. Paulo aceitou a ideia.
O investimento inicial ultrapassou R$ 4 milhões, com recursos próprios e financiamentos. O valor contemplou a aquisição e instalação do robô, além da construção de uma estrutura que atende às rigorosas especificações técnicas exigidas para o funcionamento seguro do equipamento, incluindo centros de controle, componentes eletrônicos, cabeamento, gerador e demais sistemas.

após um período de adaptação de aproximadamente 40 dias. (Foto: Adilson Cruz/JTR)
O robô também gera relatórios individualizados sobre cada vaca, informando produção de leite, número médio de ordenhas diárias, consumo de ração, número de mastigações e tempo de ruminação. Os animais são identificados por um colar com chip eletrônico, que armazena informações como temperatura corporal, atividade ruminal e outros indicadores.
Segundo Buss, cada vaca pode passar pelo robô tantas vezes quanto necessário para retirar todo o leite. “Cabe à máquina aceitar ou recusar o animal”, afirma.
No sistema anterior, eram realizadas duas ordenhas diárias, uma pela manhã e outra à noite, cada uma com duração aproximada de duas horas para que os dois filhos dessem conta de ordenhar cerca de 60 animais. O sistema robotizado entrou em funcionamento no início de dezembro do ano passado, após um período de adaptação de aproximadamente 40 dias, durante o qual as vacas permaneceram em confinamento.
Todo esse sistema exige gestão permanente da família, que acompanha diariamente o funcionamento da estrutura. O galpão opera no sistema free stall, oferecendo conforto e bem-estar ao rebanho. Embora confinadas, as vacas dispõem de baias individuais com camas, espaço para livre circulação, água fresca e alimentação balanceada, formulada especialmente para atender às necessidades nutricionais dos animais.
As áreas de circulação possuem piso de concreto, facilitando a limpeza. O galpão conta ainda com ventiladores e sistema de aspersão para manter a temperatura em torno de 18 graus, condição considerada ideal para o conforto térmico do rebanho.
Outro diferencial é o manejo ambiental. Urina e fezes são direcionadas para um biodigestor, evitando a contaminação do solo e do lençol freático. O resíduo retorna à propriedade na forma de adubo orgânico, utilizado nas pastagens e nas lavouras de milho destinadas à alimentação do gado. “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, afirma o produtor, citando a Lei de Lavoisier.
O principal desafio ainda é a destinação do gás gerado pelo biodigestor, que infla a manta do equipamento e precisa ser liberado. “Tenho informações de que há quem engarrafe esse gás e utilize como gás de cozinha. Estou buscando essa alternativa”, ressalta.
Antes da implantação do robô, a propriedade já utilizava uma esterqueira para armazenar os dejetos. A antiga sala de ordenha, construída em 1988, continua preservada e deverá ser utilizada para atender animais com menor produção.
A ordenha robotizada foi a aposta de Paulo Buss, de 66 anos, para fortalecer a principal atividade da propriedade e manter a família unida no campo. Os filhos, de 38 e 35 anos — um engenheiro agrônomo e o outro técnico em mecânica industrial — retornaram para trabalhar na propriedade.
Toda a estrutura foi construída em menos de seis meses e já possui espaço para a instalação de um segundo robô, o que permitirá ampliar a capacidade para atender entre 120 e 140 vacas. Por enquanto, esse projeto permanece como plano para o futuro. Atualmente, a propriedade possui 56 vacas em lactação e capacidade para alojar até 70 animais.
Leite sempre foi atividade da família Buss
A propriedade de 44 hectares, pertencente anteriormente a um tio, já teve tradição no cultivo de pimenta, morango e fumo, mas a produção leiteira sempre esteve presente.
Paulo lembra que, aos 20 anos, ganhou uma terneira da mãe. Em 1986, quando se casou com a esposa Eroni, possuía quatro vacas e o pai outras três, que juntas produziam cerca de 30 litros de leite por dia. Atualmente, o plantel é formado por cerca de 60 vacas da raça Holandesa, com animais que chegam a produzir até 60 litros diários.
Segundo Buss, os resultados mais expressivos da ordenha robotizada deverão ser percebidos com maior precisão a partir do segundo ano de funcionamento.
Além da atividade rural, o produtor teve atuação na vida pública. Trabalhou na Secretaria da Agricultura e na Emater, foi eleito vice-prefeito de Turuçu em 1997 e assumiu a prefeitura em 1999, durante o afastamento do prefeito. Entre as realizações das quais mais se orgulha está a implantação do ensino médio no município, escola onde seus dois filhos estudaram.
A atividade leiteira ganhou maior importância na propriedade em 2013, quando a família deixou o cultivo do fumo para investir na pecuária leiteira, decisão baseada em uma planilha de custos elaborada pelo filho Renato, já formado em Agronomia, comparando os resultados econômicos das duas atividades.

A família possui, ainda, a cerca de três quilômetros de distância, uma segunda propriedade, dedicada ao cultivo de soja e à pecuária de corte, com criação de gado Angus.
A cadeia leiteira gaúcha movimenta aproximadamente R$ 11 bilhões por ano e está presente em 453 municípios. No entanto, o produtor destaca que o setor enfrenta baixa remuneração pelo litro de leite, margens reduzidas, altos custos com energia elétrica, combustíveis e insumos agrícolas, além da concorrência dos produtos importados.
Parte desses custos vem sendo reduzida com a instalação de um sistema de energia solar na propriedade. Outra meta é conquistar remuneração diferenciada pelo leite produzido com tecnologia robotizada, já que, segundo ele, representantes da própria indústria relataram informalmente que a qualidade do produto atende aos padrões exigidos pelo mercado exportador.
Para Buss, um preço entre R$ 2,60 e R$ 2,70 por litro seria suficiente para remunerar adequadamente a atividade.
Outro diferencial da propriedade é a ausência do uso de antibióticos químicos no rebanho. As enfermidades são prevenidas e, quando necessário, tratadas com medicamentos fitoterápicos e homeopáticos, além de suplementos e vitaminas adicionados à ração e à silagem fornecidas diariamente aos animais.



