Carnaval de Pelotas volta ao calendário oficial após mais de uma década

Realização da festa na data tradicional foi resultado de acordo entre Prefeitura e entidades carnavalescas e busca fortalecer a cultura, o turismo e a economia do município. (Foto: Manuela Santos/Secom)

Depois de mais de dez anos sendo realizado fora do período oficial do Carnaval brasileiro, o Carnaval de Pelotas voltou a ocorrer na data tradicional em 2026. A mudança foi construída em conjunto entre a Prefeitura e as entidades carnavalescas e representa uma tentativa de aproximar novamente a festa do calendário nacional, fortalecendo uma manifestação cultural que faz parte da história da cidade.

Segundo Carmem Vera Roig, chefe da Secretaria Municipal de Cultura, o retorno foi resultado de um processo de diálogo com a Associação das Entidades Carnavalescas de Pelotas (Assecap), aliado ao planejamento antecipado do evento. A Administração Municipal afirma que a definição prévia do calendário permitiu que as escolas de samba e demais agremiações organizassem seus trabalhos com maior segurança.

“O Carnaval faz parte da identidade cultural de Pelotas. Retomar a festa no período tradicional significa reconectar a cidade com uma manifestação histórica profundamente enraizada na memória afetiva dos pelotenses”, informa.

No anúncio da volta do Carnaval, realizado durante a Fenadoce de 2025, o representante da Assecap Edson Planella, disse ser “um grande alívio para nós… É uma alegria em agosto já estarmos com a definição do cronograma do ano que vem. Há anos isso não acontecia”.

Tradição secular

O Carnaval pelotense tem uma trajetória que acompanha a própria formação cultural do município. No século XIX, durante o auge econômico proporcionado pela indústria do charque, os festejos eram inspirados nos carnavais europeus, promovidos principalmente pela elite local. Paralelamente, a população negra construiu seus próprios espaços de celebração, que se consolidaram como importantes manifestações de resistência e afirmação cultural.

Foi desse movimento que surgiram clubes carnavalescos negros e, posteriormente, escolas de samba que permanecem entre as mais tradicionais do Rio Grande do Sul, como a Academia do Samba e a General Telles. Entre as décadas de 1960 e 1980, Pelotas chegou a ser reconhecida como um dos principais polos carnavalescos do país, atraindo visitantes e movimentando diferentes setores da economia.

Nos anos seguintes, entretanto, dificuldades financeiras, mudanças na organização do evento e alterações no calendário fizeram com que os desfiles deixassem de ocorrer na época tradicional. Desde 2015, a Prefeitura também deixou de organizar diretamente o Carnaval, passando a destinar recursos às entidades responsáveis pela realização da festa.

Processo e planejamento

A reorganização do calendário exigiu planejamento administrativo e operacional. Conforme a Secretaria de Cultura, foi necessário adequar processos de contratação, infraestrutura, logística, segurança e planejamento financeiro aos novos prazos, além de compatibilizar as demandas das escolas de samba com os procedimentos da administração pública.

Apesar dos desafios, a experiência foi considerada positiva. Ainda de acordo com a pasta, a procura do público superou as expectativas. As senhas para acesso às arquibancadas gratuitas foram retiradas praticamente em um único dia e houve formação de filas durante os desfiles, indicando maior participação da população.

O bailarino e coreógrafo Thales Gabriel
participa do carnaval desde criança. (Foto: Arquivo pessoal)

A realização do Carnaval na data oficial também amplia o potencial turístico do evento. Para a Secretaria, o alinhamento ao calendário nacional facilita a presença de visitantes de outras cidades e beneficia setores como hotelaria, gastronomia, transporte, comércio e economia criativa. A expectativa da  Administração Municipal é consolidar uma política permanente para o Carnaval, com planejamento contínuo, fortalecimento das entidades e investimentos na ampliação da infraestrutura da festa.

Para quem vive o Carnaval de dentro das agremiações, a mudança representa mais do que uma alteração no calendário. Bailarino, coreógrafo e integrante da Corte da Diversidade de 2026, Thales Gabriel, conhecido artisticamente como a Drag Queen Mufasa Knowles, afirma que a festa marcou sua trajetória desde a infância. “Um dos meus primeiros contatos com a arte e a cultura foi através do Carnaval. Ingressei na corte de uma escola mirim no bairro onde morava e, a partir dali, surgiram oportunidades que me levaram à dança, ao teatro e à ginástica”, conta.

Mufasa Knowles, Drag Queen de Thales,
foi eleita 2ª Princesa da Diversidade
do Carnaval de Pelotas. (Foto: Arquivo pessoal)

Morador do Balneário dos Prazeres, Thales afirma que representar a comunidade durante o Carnaval também possui significado social. “Esse cargo carrega a responsabilidade de representar um bairro que muitas vezes é negligenciado nas áreas de saúde, segurança e cultura. Também é uma oportunidade de representar corpos pretos que não performam a heterossexualidade, reafirmando sua existência”, defende.

Ele lembra que acompanhou as mudanças no calendário ao longo da vida e considera simbólico o retorno da festa ao período tradicional. “Desde a infância participei do Carnaval e lembro que durante muitos anos ele acontecia na data oficial. Depois houve esse afastamento e, agora, tivemos o privilégio de desfilar novamente na época tradicional após um hiato de mais de dez anos”, afirma.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome