O “xis” ocupa em Pelotas um espaço que vai além da gastronomia. Nascido da adaptação local de sanduíches urbanos e impulsionado pelos antigos trailers que marcaram a paisagem da cidade até meados da década de 2010, o lanche se consolidou como um hábito social que atravessa gerações e reorganiza, em torno da chapa, relações de família, amizade e memória.
O que aparece com frequência nas narrativas de consumidores e empreendedores é menos a inovação e mais a permanência: carne picada, montagem na chapa e maionese artesanal formam um conjunto que, repetido ao longo de décadas, ajudou a definir um padrão local. Em uma cidade historicamente associada à produção de doces, o “xis” se afirma como um contraponto cotidiano e urbano.
Modo pelotense de fazer lanche
Entre os elementos que distinguem o “xis” pelotense de outras cidades, dois aparecem de forma recorrente: a carne picada em vez do hambúrguer tradicional e a maionese caseira como componente central do sabor.
A psicóloga Natália Lukow, 23, que nasceu em Curitiba, mas mantém vínculo familiar com Pelotas, descreve essa diferença a partir da experiência pessoal. Ao comparar com o Paraná, ela afirma que na cidade de origem predominam hambúrgueres e salsichas, enquanto em Pelotas o lanche se constrói pela combinação de camadas e pela textura da carne picada.
Ela também associa o consumo do “xis” a um hábito familiar. Para a curitibana, comer em lancherias tradicionais durante as visitas à cidade significa reencontro com a família e com um repertório afetivo que se repete ao longo dos anos. “Para mim, quando eu penso no lanche, resumo em dois elementos: carne boa e maionese caseira”, pontua.
Ronaldo Lanches e a permanência do fundador
Essa lógica de continuidade aparece de forma mais literal no Ronaldo Lanches. Segundo a gerente administrativa Larissa Kabke, o empreendimento começou há 39 anos com um trailer construído pelo próprio fundador, Ronaldo Franz Rosa, e segue funcionando no mesmo bairro, na mesma rua, com forte presença da família e do próprio criador na operação diária.
“Mesmo com uma equipe de cerca de 20 pessoas, a produção ainda é marcada pela atuação direta do Ronaldo na chapa, na montagem dos lanches e na preparação da maionese”, afirma. Conforme ela — que também é filha de Rosa —, essa centralidade é um dos principais fatores de fidelização do público.
A lógica produtiva, no entanto, também impõe limites. A casa afirma que a demanda cresce mais do que a capacidade de produção, especialmente em horários de pico, já que a opção por manter o processo manual e centralizado impede uma expansão mais agressiva.
“A pandemia alterou parcialmente essa dinâmica porque introduzimos pedidos por redes sociais, mas não mudou a nossa estrutura central: o atendimento continua dividido entre o presencial e o delivery, com prioridade para quem está no local”, frisa.
Para a família, a identidade do negócio está justamente na repetição do método. A maionese, feita pelo fundador, e a montagem na chapa são vistas como elementos que sustentam o padrão ao longo do tempo — mesmo diante de aumento de custos, que precisa ser repassado ao preço final sem redução de qualidade.
Circulu’s Lanches: padronização e adaptação
Se no Ronaldo Lanches a figura do fundador permanece no centro da operação, no Circulu’s Lanches a trajetória segue outro eixo: o da institucionalização de processos.
O empreendimento surgiu há 35 anos como um pequeno trailer próximo à antiga Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Fundado pelo casal João Fernandes Medeiros e Maria Medeiros, e hoje sob comando da filha Juliana, o lugar começou com produção familiar e estrutura reduzida, tendo o Bauru Circulu’s como primeiro lanche servido — ainda hoje um dos principais produtos da casa.
“Ao longo do tempo, a nossa operação se expandiu para uma cozinha industrial própria, com início de produção às 6h da manhã e uma cadeia organizada de preparo de insumos, montagem e entrega. Temos consistência de sabor e o controle de qualidade são os principais fatores da nossa permanência no mercado”, assegura Juliana.

A maionese, assim como em outras lancherias tradicionais da cidade, também se tornou um eixo central da identidade do estabelecimento, deixando de ser apenas complemento para ocupar posição de destaque no consumo. Para Natália, o molho é indispensável, e um dos principais motivos de gostar tanto dos lanches da cidade. “Minha mãe faz muita maionese caseira, e ela é pelotense, então gosto de comer o lanche com o molho porque me traz essa sensação de estar em casa”, adiciona.
Já para Juliana, ela sente que a lancheria manteve o antigo que caracteriza o estabelecimento, mas conseguiu se ajustar à mudanças de comportamento dos clientes. “Conseguimos incorporar opções vegetarianas, veganas, fitness e outras adaptações como pães sem glúten. A estratégia mantém o vínculo com públicos diferentes, mas sem romper com a base tradicional do cardápio”, completa.
Cidade como ponto de encontro
Tanto no Ronaldo Lanches quanto no Circulu’s, as narrativas convergem em um ponto: a presença de gerações de clientes que mantêm o hábito de frequentar as mesmas lancherias ao longo da vida.
No Circulu’s, a direção descreve um público formado por ex-estudantes que voltam à cidade e mantêm o local como referência. No Ronaldo Lanches, a lógica é semelhante: clientes que acompanham a casa desde o tempo do trailer continuam frequentando o mesmo espaço décadas depois.
Essa repetição ajuda a explicar por que o “xis” em Pelotas não se organiza apenas como mercado, mas como rede de convivência. Em diferentes versões, o lanche funciona como ponto de encontro e marcador de tempo — uma refeição que se repete em diferentes fases da vida.
Entre tradição e concorrência
Apesar da força simbólica, os empreendimentos afirmam que o setor de lanches em Pelotas é altamente competitivo. “A presença de casas antigas e novas cria um cenário de disputa, mas também de coexistência”, ponderam as gerentes. A avaliação comum entre os empreendedores é que há espaço para todos, desde que haja qualidade e consistência. A concorrência, nesse sentido, não aparece como ameaça direta, mas como parte de um ecossistema consolidado de lancherias.
Entre a chapa, a maionese e o fluxo constante de clientes, o “xis” se mantém como um dos elementos mais estáveis da rotina urbana de Pelotas. Mais do que um produto, ele aparece como uma prática social repetida, sustentada por negócios familiares e por consumidores que o incorporam à vida cotidiana. No caso das lancherias tradicionais, essa estabilidade não depende de expansão acelerada ou de mudanças estruturais profundas, mas de continuidade. No Ronaldo, isso passa pela permanência do fundador na produção diária; no Circulu’s, pela organização de processos que mantêm padrão ao longo de décadas.
Para consumidores como Natália, o sentido do hábito não está na excepcionalidade do lanche, mas na repetição. Ao falar sobre o Circulu’s — eleito seu favorito — e outros pontos da cidade, ela resume a relação com o “xis” de forma direta: trata-se de um costume que se associa ao reencontro com a família e à permanência de vínculos. “Quando estou na cidade, é obrigatório pedir em casa ou sair para comer um ‘xis’”, diz.




