Deu Espanha; Copinha & Pitacos

Jorge Fontoura, publicitário e radialista. (Foto: Arquivo pessoal)

Deu Espanha

Terminou a Copa do Mundo de 2026. Decepção total para os brasileiros — embora a morte já estivesse anunciada desde as eliminatórias, quando a classificação veio na rabeira, em quinto lugar. Como já frisei, até acho que fomos longe demais.

Enquanto a CBF não apresentar um projeto sério, contínuo e susten­tado nas seleções de base, a sexta estrela continuará distante. Alemanha, França e, agora, Espanha colheram justamente o que plantaram: formação, método, continuidade e identidade de jogo. A Espanha foi a melhor equipe da Copa do início ao fim e mereceu o título — com um gostinho especial para nós, brasileiros, por ter sido contra os nossos eternos rivais argentinos.

Copinha Dunga

O G.E. Brasil recebe hoje, no dia de fechamento desta edição, o Grama­dense para decidir o campeão da Copinha. Independentemente do resulta­do — e espero que a gente consiga o bicampeonato —, a hora de dispensar o Seu Aquino será ao término do jogo.

Não me parece o treinador adequado para encarar uma segunda divi­são. No Gauchão raiz, onde o jogo é pesado, curto e muitas vezes decidido mais na casca do que na prancheta, ele tende a patinar. Pode até voltar para Santa Catarina com o dever cumprido na base, mas o desafio que vem pela frente exige outro perfil. Ainda assim, como diz o Montanelli, espero botar a faixa no peito e a taça no armário.

E vem aí o pitaco do Rogério

Depois da Copa, sempre aparece alguém para repetir que futebol e po­lítica não devem se misturar. A frase parece inocente, mas não é. Na práti­ca, talvez seja a política mais eficiente que o esporte produz: aquela que se apresenta como neutralidade.

Separar o estádio da rua é um gesto ideológico decisivo. Protege quem lucra com a partida e desarma quem só pode assisti-la. A Copa não nasce apenas da confraternização entre os povos; nasce também de um cálculo. Sediar 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México não foi simples escolha geográfica, mas uma decisão alinhada aos maiores mercados consumido­res, aos contratos de transmissão mais rentáveis e ao poder de compra que move o espetáculo.

A bola rola, mas o que se movimenta em torno dela é capital em busca de valorização. Ingressos, pacotes turísticos, plataformas digitais, patro­cínios, direitos de imagem, apostas, publicidade: tudo orbita o jogo antes mesmo de o juiz autorizar a saída.

O sistema não precisa de repressão permanente para funcionar. Fun­ciona melhor com consentimento. “Não misture futebol com política” des­politiza o estádio e vende a ilusão de que, por noventa minutos, todos são iguais diante da bola. Não são. Há quem compre camarote, há quem com­pre camisa oficial, há quem parcele ingresso, há quem assista de longe, há quem trabalhe para que o espetáculo aconteça e há quem decida quanto vale cada uma dessas posições.

O aparelho esportivo ainda aprendeu a absorver a crítica sem se trans­formar. Faixas, camisas, homenagens simbólicas, campanhas institucio­nais: tudo pode entrar no roteiro, desde que nada altere a distribuição real de poder. O protesto vira conteúdo. A indignação vira peça de marketing. A rebeldia, quando domesticada, também vende.

Há uma lógica de classe nítida. Enquanto o espetáculo é calibrado para o mercado norte-americano, torcedores latino-americanos, africanos e árabes enfrentam barreiras que outros turistas raramente conhecem. No tabuleiro do futebol oficial, o Sul global fornece talento, mão de obra, pai­xão e audiência. Mas, quando chega a hora de deliberar sobre as regras do próprio jogo, quase sempre fica do lado de fora da sala.

Não é hipocrisia; é estrutura funcionando como deveria. A tragédia real é o consentimento. Uma classe trabalhadora multinacional veste a camisa, aplaude, vibra e aprende, no próprio estádio, a torcer contra o vizinho de arquibancada — nunca contra o sistema que organiza o placar e lucra com os dois lados da rivalidade.

O apito que encerra a partida não suspende a engrenagem da explora­ção; apenas assinala sua pausa técnica. Na manhã seguinte, sob o silêncio das arquibancadas vazias, o complexo industrial do esporte, as platafor­mas digitais e as corporações transnacionais seguem exigindo o mesmo corpo que, na véspera, gritou gol.

*Rogério Peres, publicitário, cineasta e cientista político (interino)

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