Buenos Aires e as gentis damas da noite

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Por Ciro J. Mombach

Médico

Acontecia uma coisa estranha com o câmbio do dólar no Brasil em 1988. Havia uma enorme disparidade entre o câmbio oficial e o negro. O governo oferecia a possibilidade da compra de mil dólares por adulto e quinhentos por criança no câmbio oficial. Mas comprava-se no Banco do Brasil (BB) e só podia retirar em um banco determinado em outro país. Compramos em Pelotas pra retirar em Buenos Aires.

Em julho, embarcamos em nosso Alfa Romeo 2300 Ti4 1986, com quatro cilindros, dois carburadores, quatro portas, quatro faróis e poltronas de veludo, com incríveis 149 cavalos. E para lá rumamos, via Fray Bentos. A bordo, o casal e mais um casal de filhos, de 10 e 12 anos, em férias escolares.

Por percalços no caminho, ou erro de cálculo, só chegamos ao destino às 22h. Não havia Booking na época e o hotel era escolhido na hora, com informações fornecidas pelos locais.

— ¿Hay habitacion para un matrimonio y dos menores?

— Lo siento, estamos completos.

Após muitas negativas, rumamos para uma zona densamente povoada de hotéis de preço acessível. Estacionei em uma grande avenida e deixei a família no carro, seguindo minha busca. Andava de um hotel para outro em zigue-zague. Completo, completo, completo. Parece que um cardume de brasileiros tivera a mesma ideia, lotando todos os hotéis de Buenos Aires. Afinal, dólar barato, férias escolares e bife de chorizo são iscas irresistíveis.

Às 23h30, me espantei com a hora e resolvi voltar. Não sabia mais onde estava nem como achar o carro. Meia hora depois, avistei, ao lado do carro, duas mulheres de saia muito curta e maquiagem pesada… e a minha mulher. Uma delas abraçada a ela. Choravam alto e falavam palavras sem sentido, tanto em português como em castelhano. Pressenti uma grande desgraça.

Quando me viu, minha mulher me fitou, com os olhos borrados de choro e lotados de fúria:

— Seu desgraçado! Abandona a família num país estranho… Achei que tinham te sequestrado!

— Mulher, eu me perdi procurando hotel…

— Ainda bem que as moças me socorreram.

Agradeci de modo enfático às gentis damas da noite a atenção e o carinho dispensados a minha família. Entrei no carro e fomos rumo ao Sheraton, que, por óbvio, tinha vaga.

Enfim, se quiser dispensar o carinho das damas da noite, vá direto ao certo e caro hotel…