Muito além da dor: os impactos das doenças crônicas na qualidade de vida

Dia 5 de julho é o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica. (Foto: Daniela Alves/JTR)

Ardências, fisgadas, fadiga ex­trema e redução da mobilidade são alguns dos sintomas das do­enças crônicas que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afetam mais de 30% da população. Classificada como uma dor que perdura por mais de três meses, o sofrimento persisten­te muitas vezes não tem cura e conta somente com o tratamen­to contínuo da morbidade, acar­retando, também, impactos so­ciais e emocionais. Por isso, a lei 15.422/2026, publicada em junho, define diretrizes de cuidado aos pacientes e determina que o dia 5 de julho passe a ser o Dia Nacio­nal de Conscientização e Enfren­tamento da Dor Crônica.

Em Pelotas, entre as princi­pais doenças crônicas registradas em atendimentos entre junho de 2025 e maio de 2026, conforme Etiene Alves, coordenadora das Equipes Multiprofissionais (eMul­ti), observou-se maior frequên­cia de cefaleia, com 484 registros, seguida por sinais e sintomas na região da lombar, com 469 regis­tros e dores musculares, com 423 registros. Também foram identifi­cados sinais e sintomas na região dorsal, doenças ou síndromes da coluna cervical, tendinite e dores nas articulações. Ademais, segun­do ela, quanto à distribuição por sexo, figura a predominância de registros entre mulheres em com­paração aos homens.

Dra. Caroline Xavier fala sobre o desafio das doenças reumatológicas. (Foto: Arquivo pessoal)

A dor do diagnóstico

De acordo com a reumatolo­gista Caroline Xavier, as principais doenças reumatológicas que le­vam à dor crônica são a fibromial­gia, osteoartrite, artrite reumatói­de e espondiloartrites. “O desafio central é que não existe relação direta entre a quantidade ou tipo de patologia orgânica e a intensi­dade da dor. A experiência de dor contínua é moldada por um so­matório de fatores médicos, psi­cossociais e comportamentais, tornando a avaliação e diagnósti­co não diretos”, explica. Conforme ela, nesse processo, é fundamen­tal entender onde e em quais situ­ações de vida a morbidade iniciou.

Na vida de Jéssica Pereira, de 35 anos, o diagnóstico de osteo­porose veio há dois anos, em um momento considerado um dos mais bonitos na vida de uma mu­lher: a maternidade. Para ela, lidar com uma doença associada ao envelhecimento foi desafiador. “Foi um choque enorme. Eu ti­nha apenas 33 anos e nunca ima­ginei que pudesse ter osteoporo­se, muito menos sofrer múltiplas fraturas na coluna. Quando recebi o diagnóstico, senti medo e mui­ta insegurança sobre o futuro. É difícil aceitar uma doença que a maioria das pessoas associa à ter­ceira idade quando você acabou de se tornar mãe e deveria estar vivendo um dos momentos mais felizes da vida”, conta.

Ela relata que os primeiros sin­tomas apareceram cerca de dois meses após o nascimento de seu filho. “No início, achei que fosse consequência da gravidez, da ce­sárea, da amamentação ou de car­regar um bebê o tempo todo. Mas a dor só piorava, até o ponto em que atividades simples, como le­vantar da cama, pegar meu filho no colo ou caminhar por alguns minutos se tornaram extrema­mente difíceis”. Após exames de imagem, foram identificadas vá­rias fraturas vertebrais causadas pela osteoporose associadas à gestação e à lactação – uma con­dição rara.

Jéssica Pereira foi diagnosticada com osteoporose quando havia recém se tornado mãe, aos 33 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

A doença mudou completa­mente a sua rotina. Jéssica preci­sou se afastar do trabalho por um período e, até hoje, precisa plane­jar suas atividades para que não gerem uma sobrecarga. “Passei muito tempo sem conseguir diri­gir longas distâncias, viajar ou sim­plesmente brincar com meu filho como eu gostaria. Atividades físi­cas também precisaram ser total­mente adaptadas”.

Para ela, o mais desafiador foi perceber que não poderia cuidar de seu bebê como gostaria. “Sen­tir dor constante enquanto ele precisava de mim foi devastador. Também foi muito duro descobrir que eu tinha sofrido várias fratu­ras na coluna e lidar com a incer­teza sobre quanto tempo levaria para voltar a ter uma vida próxi­ma do normal”. Mesmo contando com o apoio da maioria das pes­soas da sua volta, a osteoporose trouxe sentimentos de isolamen­to e insegurança. “Conviver dia­riamente com dor crônica, limi­tações físicas e medo de novas fraturas gera ansiedade, frustra­ção e momentos de tristeza”.

O caminho para o tratamento

A reumatologista explica que a dor é uma resposta muito valio­sa do corpo, pois indica que algo está lesionado ou funcionando de maneira errada. “É um aviso que não deve ser negligenciado. Porém, deve ser elucidada a cau­sa desta dor, isso é fundamental”, diz. Assim como cada paciente é único, seu tratamento também. “Ele é totalmente individualizado, buscando compreender as causas, fatores de piora, doenças associa­das e impacto na vida prática do paciente. Geralmente são usadas medicações de ação central, mas o tratamento depende de medi­das não farmacológicas, como exercícios e nutrição”, completa.

Ícaro Islabão é fisioterapeuta e diz que o exercício físico pode auxiliar em certas lesões. (Foto: Arquivo pessoal)

O fisioterapeuta Ícaro Isla­bão pontua que o exercício físico pode auxiliar em certas lesões e atrapalhar em outras. O equilíbrio se encontra no momento apro­priado no tratamento e na ava­liação e sugestão do profissional. “Patologias como a fibromialgia é indicada e necessária a interven­ção junto ao exercício físico ime­diatamente. Já, algumas lesões traumato-ortopédicas que pos­suem fator mecânico como cau­sador deve se avaliar bem em que momento indicar os exercí­cios”, completa.

Ele aponta que cada paciente e quadro é diferente um do outro, podendo variar o prazo de me­lhora na autonomia e alívio das dores. “A reabilitação traz de vol­ta a autonomia, ou seja, devolve sua ‘vida normal’. Expõe o pacien­te aos exercícios, que depois, em retorno à sua rotina, serão neces­sários para a execução de seus movimentos”.

Quanto aos principais erros cometidos por quem sofre com esse tipo de dor, Islabão destaca a automedicação e a demora em procurar ajuda profissional. “90% dos profissionais de saúde são capacitados e almejam realmen­te curar seus pacientes, porém, escuto relatos de pacientes que não costumam fazer sua parte no tratamento, visto que, comu­mente, é a parte mais importan­te para que as condutas elegidas pelo profissional tenham suces­so”, avalia.

Para Caroline, algumas cren­ças podem atrasar um tratamen­to efetivo. “Existem alguns mitos que pacientes com dor crônica não devem fazer exercícios, que é aceitável sentir isso com o pas­sar da idade, associar a alteração em um exame de imagem a dor e então acreditar que toda cul­pa da dor é daquela lesão, ou, se não aparecer nada nos exames, achar que não tem nenhuma do­ença e acreditar que vitaminas ou suplementos vão curar a sua dor”, elenca.

Vanuza Motta convive com a discopatia degenerativa com radiculopatia crônica há 25 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Rotina e limitações

Mesmo utilizando remédios contínuos, Vanuza Motta, de 53 anos, conta que precisa lidar com dores nos braços, formiga­mentos, sensação de choque e câimbras. Ela possui discopatia degenerativa com radiculopa­tia crônica, e seu diagnóstico foi gradual. “Em 2001 eu comecei a sentir dores no ombro e nos braços como se fosse uma tor­ção. Acabei indo ao médico, e ele me falou que era cervicalgia, me receitando antinflamatórios e fisioterapia. Em 2005, fui diag­nosticada com hérnia de disco na cervical e depois de vários tratamentos sem sucesso fui encaminhada para uma cirurgia, onde coloquei uma placa e 6 pa­rafusos. Hoje tenho uma hérnia reincidente na cervical e outra na lombar”, conta.

Até mesmo as atividades físicas prejudicam as dores de Vanuza. Ela relata que gostava de dançar e fazer exercícios, mas sente que piora o quadro. Além disso, as doenças a impedem de ter uma vida social ativa. “Estou afastada do trabalho por tempo indeterminado desde setembro de 2025. Sem contar que estudo e, na maioria das vezes, entro de atestado, realizando trabalhos em casa”, afirma.

No entanto, para ela, a pior parte é como a dor afeta seu sono e bem-estar emocional. “Sofro às vezes calada para não preocupar meus filhos e família, pois sei que não tem cura, e não acho certo que deixem de seguir a vida em função da minha doença”, relata. Nos momentos de intensificação da condição, ela procura rezar, assistir um filme ou fazer qualquer outra coisa que a auxilie a esquecer da dor. “Os dias que não sinto nenhuma dor são raros, mas são ótimos, uma pena que não dura”, lamenta.

Acolhimento e apoio

Em Rio Grande, segundo Carliuza Luca, coordenadora do Núcleo de Educação em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (NEPICS) e da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), as principais patologias são justamente as doenças crônicas. “Grande parte dessas condições apresenta evolução clínica acompanhada por quadros de dor persistente. Muitas dessas doenças também estão associadas ao sofrimento emocional, ansiedade, depressão e redução da qualidade de vida”, pontua.

Presidente da AssFibro em Rio Grande, Nadiane Malta, convive com a fibromialgia desde 2016. (Foto: Arquivo pessoal)

Uma das doenças que não tem cura é a fibromialgia. O diagnóstico dessa doença na vida de Nadiane Malta, de 50 anos, hoje presidente da Associação de Apoio às Famílias e Pessoas com Fibromialgia e Dores Crônicas em Rio Grande e Região-RS (AssFibro), demorou três anos para ser completamente fechado. “Os sintomas começaram de forma discreta. Com o passar do tempo, as dores se tornaram mais intensas e frequentes, e dormir realmente pareceu o pior desafio. Então iniciou a redução de força mesmo com objetos leves e a perda de memória”.

Ela ressalta que convive diariamente com a dor, e muitas vezes, acaba perdendo a vontade de estar com as pessoas. “Ela aumenta em períodos de estresse, noites mal dormidas ou quando faço esforço físico além do que meu corpo suporta”. Nadiane precisa frequentemente reorganizar seus compromissos, diminuir o ritmo e abrir mão de atividades sociais, já que seu corpo não responde como ela gostaria.

A presidente combina acompanhamento médico com fisioterapia e atividades físicas. Todavia, para ela, é fundamental cuidar da saúde emocional tanto quanto da dor física. “Existem dias mais difíceis do que outros, mas aprendi que é possível viver com mais qualidade quando recebo apoio sou compreendida e mantenho o tratamento. A maior dificuldade não é apenas a dor, mas também lidar com a falta de compreensão das pessoas, já que a fibromialgia é uma doença invisível. Por isso, informação, empatia e acolhimen­to fazem toda a diferença”, relata.

Reforçando o impacto emo­cional, a reumatologista enfati­za que as doenças contínuas po­dem ser determinantes na rotina de uma pessoa. Assim, a com­preensão dos familiares e ami­gos é imprescindível para um maior sucesso no tratamento. “A dor persistente para muitas pessoas é a chefe de suas vidas, infelizmente. É ela que decide se você vai dormir hoje, se vai a uma festa, se vai conseguir le­vantar da cama, se vai limpar a casa, e isso não é uma escolha. Para quem vive com dor, ser ou­vido com empatia e acolhimen­to, orientado e encorajado a as­sumir o protagonismo na sua existência transforma a história de sua vida”, finaliza.

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