Nada sabíamos de Mantova, mas indo de Milão a Verona resolvemos ali pernoitar. Tudo por causa de um anúncio do Palazzo Arrivabene B&B. Pelas fotos se tratava de um antigo palácio, com lustres, tapetes e escadarias suntuosos. A mesa do café da manhã, incluída no preço, parecia bem apetitosa e tudo isso por um preço de ocasião. Ali chegados, nos recebeu o casal de proprietários, ela parecendo bem mais velha do que ele. Chamou a atenção de minha mulher o proprietário; jovem, de uma beleza incomum, porém, o mais marcante eram seus olhos de um azul deslumbrante, quase ofuscante. Quanto ao Pallazzo, era tudo diferente; parecia funesto ao invés de suntuoso. O quarto, bem espaçoso, tinha uma cama antiga e toda mobília era muito vetusta. Havia quadros com fotografias de pessoas muito antigas nas paredes inclusive no banheiro. Apesar da decepção, resolvemos ficar. Nos deram a chave da frente do Palazzo e ficamos sabendo que estavam em reforma e que seríamos os únicos hóspedes. Saímos para dar uma volta no centro e, ao voltar, a mulher que nos recebera se preparava para partir em sua bicicleta e nos deu um telefone dizendo que não ficaria nenhum encarregado do hotel durante a noite. Minha mulher arregalou os olhos de espanto – “Quer dizer que ficaremos sozinhos (com os fantasmas) no prédio? – Sim, por isso estou deixando este telefone”.
Bateu um arrepio na espinha. Para piorar, descobrimos que o quarto não tinha chave. Minha mulher olhava para os quadros na parede e insistia que havia alguém espiando por trás deles. Ela e eu deslocamos uma poltrona centenária para obstruir a porta. Me fez inspecionar um armário muito antigo em busca de alguém dentro dele ou de alguma passagem secreta. Me fez olhar atrás de cada móvel e de cada cortina. Tomou banho incomodada com os quadros de fotos ancestrais que ela dizia a estarem vigiando. Nos preparamos para dormir e, para minha surpresa, ela se deita ao contrário na cama. Pergunto se tem algum buraco no colchão e ela diz que não. Se tapa até a cabeça deixando só o nariz de fora.
– Qual é o problema, mulher?
– Se vier algum vampiro, vai pegar os meus pés ou o teu pescoço, mas não o meu.
– Que vampiro, mulher?
– Aquele rapaz lindo que nos recepcionou, por que achas que é tão jovem e bonito? Porque suga o sangue das pessoas!
Nossas barricadas nos protegeram contra o vampiro, mas a noite foi mal dormida. O café da manhã era realmente apetitoso como na foto. Ao deixar o Palazzo, descobrimos que havia o Mantova Medievale, um festival anual da cidade. Acontecia em um bosque ralo e se estendia por quilômetros ao longo de um lago formado pelo rio Mincio que margeia a cidade. Ali, os participantes usavam roupas medievais e exibiam hábitos da época. Concursos de arco e flecha, de arremesso de machado, duelos de esgrima com espadas antigas, combate de cavaleiros com lança, tudo isso vestidos com trajes medievais. Comidas e bebidas ancestrais eram servidas ao som de músicas tocadas com instrumentos da época como harpa, flauta e cravo.
Enfim, o dia conseguiu suplantar a noite, embora no lusco-fusco do bosque eu percebia o olhar da minha mulher ainda à espreita de algum vampiro, porém eles não atacam de dia, mas, nunca se sabe…
Por Ciro J. Mombach
Médico



