O coelho de chocolate

Rubens Amador. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Frente à famosa confeitaria de um francês, conhecido como um profissional muito qualificado, estaciona uma Mercedes Benz conduzida por um chofer devidamente fardado com quepe e luvas.

A cena mostrava que se tratava de uma pessoa importante que iria efetuar alguma compra ou encomenda com o confeiteiro. Realmente, o motorista abre a porta do automóvel para seu passageiro, por certo patrão, que, elegantemente vestido com um casacão preto, muito fino, trazia em sua cabeça um chapéu Borsalino italiano.

Tal cidadão, que logo se via tratava-se de pessoa de muitas posses, dirige-se a um funcionário do estabelecimento e pede para falar com o gerente. Em seguida, um senhor com forte sotaque francês se aproxima e, ao ver o elegante cliente a sua frente, convida-o logo para passar ao escritório, onde poderia atendê-lo melhor.

Após uma recíproca apresentação, o senhor fica sabendo que fala com o dono da casa, o famoso confeiteiro francês, e diz-lhe que deseja fazer a encomenda de um coelho de chocolate com características muito especiais. Perguntando ao profissional se ele poderia atender tal tipo de pedido, o francês prontamente disse logo que não haveria problemas, “que bastaria que monsieur dissesse com minúcias o que desejava que seria atendido”.

O cliente fez um pequeno discurso: ”Sr. Pierre, desejo que seja executado um coelho em posição de fuga, nas dimensões de 42 centímetros e quatro milímetros do rabo ao focinho Tudo em chocolate de cor cinza. Não estou interessado em prazo nem em preço. Entendeu bem como desejo o animal?”. “Monsieur, fique tranquilo que tenho condições de executar sua encomenda tal como deseja”, retrucou o confeiteiro no seu forte sotaque francês.

”Bem, então estamos acertados. Quando deseja que retorne?

“O monsieur pode voltar em 30 dias, que terá seu pedido atendido”.

Despediram-se. Passado o tempo combinado, retorna o Mercedes Benz com seu ilustre passageiro, conduzido pelo mesmo chofer. Aberta a porta do veículo, desce o nosso herói em novo traje elegante como da primeira vez. Mal o confeiteiro notou a chegada do ilustre cliente, Monsieur Pierre foi ao seu encontro, convidando-o a passar para o interior da casa.

Em cima de uma mesa de jacarandá, com fina e alva toalha de linho, lá estava a encomenda: o coelho de chocolate, em cor cinza, na posição de corrida desabalada como pedira o freguês. O cliente passou a andar à volta da mesa observando detidamente a peça de chocolate, cenho fechado, mão ao queixo. Até que falou: “Sr. Pierre, vai me perdoar mas um animal em corrida desesperada, jamais teria as orelhas e a cauda caídas, e sim paralelas ao corpo devido ao vento. E os músculos das patas também não estão retesados. O torso está arqueado, quando deveria estar plano!”.

O francês falou, meio humilhado: “O ‘senhorr’ tem toda a razão, há defeitos. Peço-lhe mais 30 dias e prometo-lhe que sua encomenda ficará de acordo com seu ‘apurrado’ gosto”. Despediram-se, ficando o cliente de voltar no prazo dado.

Naquela noite, Pierre não dormiu. No outro dia, estava na Biblioteca Pública, pesquisando livros sobre coelhos nas mais diversas posições. Fez várias fotos. Não satisfeito, comprou um coelho vivo, e corria-o em área grande da confeitaria, com um cabo de vassoura, em busca da perfeição muscular.

Chegados os novos 30 dias, eis que desembarca o cliente, que é logo introduzido no interior da confeitaria. Sobre aquela alva toalha de linho estava o animal na posição de corrida, as quatro patas no ar. O cliente requintado e exigente novamente anda em torno da mesa observando sua encomenda, enquanto o coração do francês batia acelerado. Com uma trena de prata o coelho foi medido. Medidas rigorosamente certas. O nobre freguês rompe o silêncio dizendo: ”Meus cumprimentos, meu pedido agora está rigorosamente perfeito.

As dimensões e a contração muscular, exatas. Parabéns!” O francês orgulhoso e contente, responde: “Fico satisfeito que tenha podido ‘realizar’ seu exigente pedido. Dê-me um momento que vou buscar um papel especial que mandei vir do Uruguay para enrolá-lo”. O exigente cliente respondeu: ”Não é preciso, pois vou comê-lo aqui agora mesmo, com sua licença”. E puxando uma cadeira, em cerca de 25 minutos não ficou um só farelinho sobre a alva toalha de linho sobre a mesa de jacarandá ante o francês, boquiaberto.

Por Rubens Amador