Movimento negro transforma 13 de Maio em data de reflexão sobre racismo e reparação histórica

Organizações defendem justiça tributária e políticas permanentes de reparação para enfrentar heranças da escravidão no Brasil. (Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

*Com informações da Agência Brasil

O 13 de Maio, data oficial da abolição da escravidão no Brasil, é tratado por movimentos negros e pesquisadores não como uma celebração da liberdade, mas como um momento de reflexão sobre as consequências sociais, econômicas e raciais deixadas pelo fim formal da escravidão em 1888.

Embora a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel tenha encerrado juridicamente a escravidão, historiadores destacam que não houve qualquer política de integração social, distribuição de terras, acesso à educação ou inclusão econômica da população negra recém-liberta.

Milhares de pessoas deixaram as fazendas sem moradia, renda ou assistência do Estado. Em muitos casos, continuaram submetidas às mesmas relações de exploração anteriores à abolição.

Por isso, a data passou a ser utilizada pelo movimento negro como símbolo da luta contra o racismo estrutural e da defesa de políticas de reparação histórica.

Justiça tributária

Entre as iniciativas lançadas neste 13 de Maio está a campanha Justiça Tributária Já, organizada por entidades da sociedade civil, como o Instituto de Estudos Socioeconômicos e a Oxfam Brasil.

A proposta defende mudanças no sistema tributário brasileiro para reduzir desigualdades raciais e sociais. Entre as medidas sugeridas estão a taxação de grandes fortunas, lucros e dividendos, além da revisão de benefícios fiscais considerados concentradores de renda.

Segundo estudo divulgado pela Oxfam Brasil no documento Arqueologia da Regressividade, cerca de 80% dos super-ricos do país são homens brancos. Já entre os beneficiados pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil, 44% são negros e 41% são mulheres.

O levantamento aponta ainda que mulheres negras sustentam famílias com menor renda média e maior impacto proporcional de impostos indiretos, cobrados sobre consumo, alimentação e serviços básicos.

Para as entidades, a atual estrutura tributária brasileira aprofunda desigualdades históricas ao cobrar proporcionalmente mais da população pobre — onde se concentra a maior parte da população preta e parda.

PEC da Reparação

Outra mobilização lançada nesta terça-feira é a campanha Nem Mais um Dia: Reparação Já, articulada pela bancada negra do Congresso Nacional em defesa da aprovação da PEC 27/2024.

A proposta prevê a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial, destinado ao financiamento permanente de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades raciais.

Entre as ações previstas estão programas de empreendedorismo negro, combate às desigualdades econômicas, inclusão social e incentivo a projetos culturais e educacionais.

A comissão especial que analisa a proposta é presidida pela senadora Benedita da Silva. O texto tem relatoria do deputado Orlando Silva e autoria do deputado Damião Feliciano.

Segundo defensores da proposta, o fundo poderá destinar cerca de R$ 1 bilhão por ano, durante duas décadas, para ações de reparação histórica.

Herança da Escravidão

Pesquisadores apontam que os efeitos da escravidão permanecem visíveis em indicadores sociais, econômicos e educacionais.

Dados do Ministério do Trabalho mostram que homens não negros têm renda média de R$ 6 mil, enquanto mulheres negras recebem, em média, menos da metade desse valor.

Mesmo com políticas afirmativas implementadas nas últimas décadas, a diferença salarial permanece elevada. Mulheres negras com ensino superior continuam recebendo salários significativamente menores do que homens brancos com a mesma escolaridade.

Para a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, professora da Universidade de Brasília, a abolição não representou cidadania plena para a população negra.

Segundo ela, o racismo continuou estruturando o acesso ao emprego, à educação, à saúde e à moradia no país mesmo após o fim da escravidão.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão e recebeu cerca de quatro milhões de africanos escravizados ao longo do período colonial e imperial. Apenas o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, principal porto de entrada de escravizados do país, teria recebido mais de um milhão de pessoas traficadas da África.