Em 1992, o meu país – na época chamado Iugoslávia, e hoje Sérvia – estava sob sanções econômicas. Tais medidas atingiam principalmente os mais vulneráveis. Por isso, a política externa sérvia hoje não abandona as negociações e não se alinha facilmente à punição de outras nações. As sanções impostas à Iugoslávia em 1992 significavam que nossas seleções nacionais não podiam participar nas competições internacionais. Os jogadores de futebol sérvios, conhecidos pelo apelido de “brasileiros europeus”, ficaram isolados do resto do mundo por mais de dois anos. Acredito que a melhor prova para justificar esse apelido é o lendário Dejan Petković que, na ocasião da entrega das minhas credenciais diplomáticas, em 22 de maio de 2024, foi chamado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “o sérvio mais brasileiro e famoso do nosso país”.
No final de 1994, o regime de sanções internacionais foi relaxado. A Iugoslávia, ferida, sem jogos contra seleções estrangeiras, mas ansiosa para se mostrar, recebeu um convite para jogar sua primeira partida após uma longa pausa. O convite veio de um lugar que não poderia ser melhor ou mais prestigiado: o adversário seria o Brasil, o campeão mundial. A partida foi disputada em Porto Alegre, no dia 23 de dezembro de 1994. O povo sérvio não esquece a honra que a seleção nacional teve naqueles dias que antecederam o Natal em 1994.
Neste ano, quando se completou 10 anos desde as grandes enchentes que afetaram um terço da Sérvia em 2014, testemunhamos uma catástrofe semelhante que atingiu o Rio Grande do Sul, o estado brasileiro que tem um lugar especial em corações dos sérvios, justamente por causa da partida de 1994.
Escolhemos nossos amigos na vida, no esporte e nas relações internacionais. Estou feliz por representar a Sérvia aqui neste país tão amigável.
Por Aleksandar Ristić
Embaixador da Sérvia no Brasil




