O sininho encantado

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Lá em casa, se sabia quando chegava dezembro pelo nariz. O ambiente se enchia de aromas de Natal. As bolachinhas decoradas eram as primeiras. Estrelas, bonequinhos de neve, patinhos, Papais Noéis, havia das mais variadas formas. Confeitadas com glacê e polvilhadas com açúcar colorido, era uma festa só de olhar. De mel, de farinha ou amanteigadas, a mãe fazia de todas. Muito antes do Natal, de maneira muito camuflada, começava a preparação denunciada pelo forno revelador. Papai Noel deixava uma amostra da fornada em pacotinhos pendurados, no dia 6, dia de São Nicolau.

Próximo à véspera do Natal, era a vez do pinheirinho. Sempre natural e o maior que coubesse, dava um trabalho transportar. Secretamente, a mãe fazia o presépio na sala interditada.

As comidas vinham a seguir. Lombo de porco enfeitado com rodelas de abacaxi, figos e farofa. Peru que quase não cabia no forno, saía dourado e recheado. Salpicão, salada de batata, arroz com shitake e torta fria. Doces em calda, de figo e de pêssego, sagu de pera, ambrosia, pudim de leite e torta de chocolate.

A festa acontecia no dia 24 por volta das oito da noite. O pai tocava um sininho de bronze que emitia um som agudo e penetrante. Esse só para isso existia, pois no resto do ano nunca era usado ou encontrado. A alegria do pai estampada em seu sorriso só não era maior do que a expectativa das crianças na fila que se formava. Nessa hora, a mãe desaparecia na sala interditada e principiava um cheirinho de velas acesas.

Abria-se a porta e o Natal começava. Olhinhos brilhantes admiravam o presépio e o pinheirinho enfeitado, mas de esguelha espiavam os montinhos brilhantes no sofá. Então, rezávamos e cantávamos Noite Feliz e o Tannenbaum em alemão. A rezação e a cantoria nos pareciam intermináveis, pois o que queríamos mesmo era correr para os presentes. Mas só depois do discurso da mãe.

Eram seis volumes no sofá, cada um com o seu nome. Papéis decorados e fitas coloridas envolviam objetos cheios de mistério. Pai e mãe acompanhavam com deleite a nossa excitação. Sempre havia um brinquedo, uma roupinha e um pacote de bolachas decoradas. Daí, saíamos em correria, chutando bolas, empurrando carrinhos, comparando os presentes recebidos.

Aquela enorme mesa decorada com as orquídeas do pai e a culinária esmerada da mãe, naquela época, não nos atraía. Assim era o nosso Natal. Há tempos papai virou ajudante do Noel e, hoje, quem toca o sininho sou eu.