Afetividade em tempos de pandemia

Otávio Avendano (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Querido leitor:
Já está fazendo um ano que o médico Drauzio Varella não aparece em público abraçando alguém. A última pessoa que mereceu esse registro foi a detenta transgênero e soropositiva Suzi, que comoveu o médico e gerou uma série de debates polarizados, onde a emoção foi disseminada pelas redes sociais ao mesmo tempo em que se questionava o merecimento da detenta do gesto de carinho, como se ela estivesse sendo absolvida pelos crimes cometidos.

Poucos dias depois, todos fomos obrigados pela pandemia a substituir os abraços por outras formas de cumprimento, o que realmente está fazendo muita falta. Um ano sem poder abraçar os amigos está promovendo nos mais sensíveis uma série de sentimentos ambíguos, inclusive nos semi deuses de Facebook que de uma forma talvez despercebida fazem multiplicar o sentimento de ódio dos seus sofás para as redes sociais, onde ganham ampla visibilidade, curtidas e compartilhamentos.

O festejado historiador Yuval Harari, em recente entrevista, afirmou que o maior perigo, na pandemia do COVID-19, não é o vírus em si, já que a humanidade – segundo o pensador – já dispõe de todo conhecimento e das ferramentas tecnológicas para vencê-lo. Para Harari: “O problema realmente grande são nossos demônios interiores, nosso próprio ódio, ganância e ignorância”.

De fato, a preocupação de Harari parece ter sentido, porquanto, paralelamente às terríveis notícias sobre o exponencial crescimento do número de pessoas infectadas, hospitalizadas e de óbitos, em razão da pandemia do COVID-19, temos sido expostos diariamente a uma outra ordem de fatos que, a princípio, parecem escapar à racionalidade.

Em situações excepcionais, tais como uma pandemia, a explicação mais fácil e confortável para tais comportamentos seria colocá-los na conta de uma ideia essencialista da “natureza humana” ou de “demônios interiores”, algo como: – “Nessas horas o ser humano revela o que há de melhor e o que há de pior dentro de si”. Com esse veredito, acalmam-se as consciências e situa-se o ódio num domínio abstrato e estranho, no qual, obviamente não estamos inseridos. O ódio, circunscrito nos limites de manifestações bizarras e “patológicas”, nos causa perplexidade e indignação mas, após a enunciação de uma frase de efeito, vira-se a página, fecha-se o jornal e a vida segue seu curso, na esperança de que os “odiosos” tenham o destino merecido.

No entanto, discursos de negação às evidências científicas, de glorificação da violência e da morte, a xenofobia, a trivialização de genocídios e a disseminação de “fake news”, certamente, não são práticas inauguradas pela pandemia. O que se constata é a reiteração de fenômenos recorrentes e velhos discursos de ódio, em novas aparições no palco da história, sob as luzes da “claridade pandêmica”, na feliz expressão de Boaventura Sousa Santos.

Ou seja, a pandemia deixa à mostra dinâmicas profundamente entranhadas na tessitura do Estado Moderno, tal como vários pensadores já denunciaram. Michel Foucault, em seu curso ministrado no Collége de France, nos anos de 1976 e 1977, publicado no Brasil sob o título “Em Defesa da Sociedade” demonstrou como o discurso da “guerra das raças” – que nada mais é que o uso político e intencional do ódio – foi utilizado e acionado em vários contextos geográficos e diferentes momentos históricos num cálculo próprio das estratégias políticas.

Por outro lado, falava-se em falta de empatia no mundo e, de repente, uma enxurrada de pedidos para que ficássemos em nossas casas a fim de preservarmos não só as nossas vidas, mas as das outras pessoas que estavam entre as com fatores de risco, como idosos e doentes crônicos.

Esta foi, portanto, a primeira grande chance da humanidade, em anos, de demonstrar a capacidade de exercermos o autocuidado e praticarmos o cuidado com o outro. Isso nos promove a reflexão de qual o nosso papel no mundo? Qual a nossa importância para as outras vidas?

Se antes achávamos que não éramos, pois agora percebemos que somos sim importantes e partes de uma grande família humana que precisa cooperar e colaborar. Este momento está permitindo que nos percebamos como seres individuais, com suas próprias necessidades e angústias, mas também como parte integrante do coletivo e que nossas ações refletem no outro.

E a afetividade? Onde nos inserimos neste contexto? O que a vida está nos pedindo? Monja Coen fala sobre o mundo pós-pandemia: “vamos descobrir outras maneiras de comunicação amorosa sem ser de afeto”. A monja budista acredita que não voltaremos à vida como ela era antes do novo coronavírus. Para a filósofa Marcia Tiburi, o importante no momento é se apegar aos pequenos gestos para viver um dia de cada vez.

Fica o convite à reflexão: o que, como seres individuais, estamos fazendo para contribuir na coletividade em que estamos inseridos? Será que precisamos nos apropriar dos discursos políticos para defender argumentos cujo entendimento está longe dos meus conhecimentos sobre saúde? O que eu posso fazer, hoje, para que meu familiar se sinta acolhido e não julgado? Como posso olhar para mim como alguém que também precisa de atenção e compreensão?

Tais questões são renovadas, de tempos em tempos, em nossas cabeças. Voltemos à Suzi: o que faríamos hoje com as diversas “suzis” espalhadas por aí, dentro de nossas casas e dentro de nós mesmos? Vamos, agora, abraçá-la?

Otávio Avendano é educador, palestrante, formador de círculos de construção de paz e influenciador digital.
Instagram @otavioavendano

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