Depois de mais de cinco anos afastado da mídia esportiva, retorno com esta coluna ao Tradição, reencontrando amigos de décadas. Divido o espaço com outro xavante da gema, o publicitário, cineasta e cientista político Rogério Peres, que estreia oficialmente a coluna “Da Arquibancada” neste grande tabloide.
O Futebol como Espetáculo Moderno do Coliseu Romano
O futebol reproduz com sofisticação os espetáculos do Coliseu. Estádios contemporâneos que se aproximam de 100 mil lugares — como o Camp Nou ou o Maracanã em seus auges — evocam o Anfiteatro Flaviano, que acomodava 80 mil romanos ávidos por sangue e emoção. Ali, gladiadores e bestas morriam sob olhares extasiados, enquanto o imperador manipulava a plebe para aplacar revoltas ou exaltar o poder estatal.
Hoje, milhões acompanham pelas telas, e nas arquibancadas multidões se acotovelam, pulam, gritam e vociferam, prontas para serem conduzidas — seja na euforia coletiva de um gol, seja na fúria cega contra rivais ou árbitros. No Coliseu, o polegar para baixo selava destinos; no futebol, um lance polêmico ou o VAR pode incendiar nações. Em ambos, o espetáculo transcende o jogo: é catarse social, com as massas unidas no frenesi tornando-se instrumento de paixões e poderes maiores.
Pão e Circo: A Paixão Xavante e a SAF do GE Brasil
No Sul, essa dinâmica ganha contornos locais na paixão do torcedor Xavante. Em Pelotas, o Estádio Bento Mendes de Freitas — seus 18 mil lugares fervendo nos clássicos contra o Pelotas ou nos raros duelos contra a dupla Gre-Nal — é o nosso Coliseu. A torcida fanática, com bandeiras rubro-negras e cânticos ensurdecedores, vive o “circo” como identidade: títulos de copinhas, acessos heroicos e a glória de 1985 na elite nacional alimentam o frenesi, desviando os olhos das dívidas crônicas e dos rebaixamentos.
Agora, com a venda do clube para se tornar Sociedade Anônima do Futebol — aprovada em 2025 e consumada sob novos investidores —, o “pão e circo” revela seu lado amargo. O “pão” chega com injeções financeiras prometidas, limpando contas, ajustando preços de ingressos ou subsidiando cerveja nos portões, enquanto o “circo” prossegue: jogos televisionados em rede nacional e promessas de Série B. Contudo, como em Roma, onde o imperador comprava lealdade com trigo e gladiadores, a SAF corporativiza a paixão Xavante — torcedores que lotam a Baixada por amor ao manto, não a acionistas. Juvenal diria: abdica-se do controle popular por migalhas de estabilidade, trocando o grito soberano por um espetáculo privatizado, em que o time sua para lucrar, não só para vencer.
Assim, o GE Brasil SAF perpetua a fórmula romana: a paixão do torcedor, esse “polegar” popular, sustenta o circo, mas arrisca tornar-se refém do pão dos novos senhores.




