Entre uma e outra página do livro, meus pensamentos viajam. Isso acontece quando o autor me faz questionar ideias, rever experiências, colocando, em xeque-mate, o aprendizado.
Sinto-me, então, invadida na minha privacidade como se alguém entrasse pela porta, sem ao menos bater, e fosse chegando com palavras escritas a fogo, me forçando a recebê-lo no meu mais íntimo esconderijo.
Nada é por acaso. Esse livro, de que falo, estava na lista de um jornal como indicação de boa leitura. Chegou as minhas mãos, bem recomendado, mas só comecei a lê-lo depois de conservá-lo por um período considerável numa prateleira. Num desses domingos em que a vida se aquieta e os olhos percorrem a casa com calma, me deparei com ele de novo. Curiosa e despretensiosamente, o abri.
Não vi o tempo passar e, se passou, não permitiu que coisa alguma acontecesse sem que eu deixasse de viver cada linha, cada trecho, cada capítulo.
É a história de uma vida que tem muito em comum com a minha própria. Uma mulher, que não conheço, redigiu traços que me definem e me sacodem, me espremem e me renovam. Clara e translúcida, em cada linha, dá testemunho da realidade, em que não conseguimos ocultar o pior nem o melhor de nós. Fala em caminhos, traça planos, desenha o projeto da casa da vida, do porão até o sótão, numa compreensão exata e simples do que queremos encontrar durante a jornada. Para tanto, propõe banhos de limpeza interior com detergentes, escovas e tudo o mais que se fizer necessário.
É preciso varrer o pó da “casa”, vasculhar gavetas, abrir armários, separando o que é útil e despojando-se do que não serve mais.
Na medida em que viro a página, vou me certificando do que não quero mais, daquilo que é descartável, que não me traz ventura. A maior lição do livro, talvez seja a de que devemos descobrir o que está errado, na percepção clara do que queremos e da conclusão serena do que não queremos.
A chegada ao sótão da casa, é uma longa e difícil tarefa: – do porão, passamos ao primeiro andar; depois ao segundo e ao terceiro, com recaídas e tropeços. É o que se chama de “meio-tempo”. Estou no “meio tempo” quando não estou feliz onde estou e não tenho muita certeza se quero sair, ou como sair.
Trilhei cada página do livro e me vi saindo do porão, passando pelo primeiro e pelo segundo andar, escorregando daqui e dali, mas segurando no corrimão da escada com muita fé. Estou no terceiro andar na maior parte do tempo, apesar de, ainda, cair no segundo e no primeiro piso. É tudo muito lento.
Quero chegar ao sótão onde estão os meus anseios peneirados e de onde se descortina uma visão completa da paisagem. Consigo enxergar o campo verde a minha frente e ouço pássaros cantando.
E tudo é dessa forma na engrenagem dos acontecimentos. As roldanas vão entrando nos eixos, o andar da carroça acomoda as melancias e vamos dando conta do recado.
O tempo é o preparador técnico que entende de espaços, de lacunas, de suspiros e soluços.
No silêncio, as ansiedades escorrem lentamente como grãos de areia na ampulheta.
E, na verdade, somos os autores das nossas biografias. Devemos estar sempre alertas para o que der e vier, sem culpas ou receios, plenos de compreensão por nós mesmos e pelos outros, também.
Depois do “meio tempo”, do intervalo, às vezes, o jogo toma o rumo certo e a partida se decide com o resultado desejado.
Afinal, o Amor habita o sótão e é lá que quero viver! Em muito boa companhia, diga-se de passagem! Na minha, é claro! E na de quem mais quiser compartilhar.





