
Em Pelotas, as mulheres representam 53,29% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de serem maioria, os números da violência de gênero preocupam. De acordo com o II Boletim Técnico do Observatório Nosotras, no primeiro semestre de 2025 o município registrou 867 delitos contra mulheres, entre feminicídios – consumados e tentados –, ameaças, estupros e lesões corporais. A tendência se mantém em 2026. Até 5 de fevereiro, foram contabilizados 170 casos, conforme os Indicadores da Violência Contra a Mulher da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP). Diante desse cenário, organizações como o Grupo Autônomo de Mulheres de Pelotas (Gamp), a Frente Feminista Antirracista e Anticapitalista (8M Pelotas) e o Observatório Nosotras atuam na região sul com ações de informação, conscientização e enfrentamento às violências contra mulheres e ao feminicídio.
Criado em 1992, o Gamp – um dos movimentos feministas mais influentes entre 1990 e 2010 de Pelotas – surge em meio a criação de várias entidades vinculadas aos partidos políticos de esquerda, à pastoral da mulher da igreja católica, mulheres sindicalistas e mulheres do movimento estudantil na pós-ditadura. “O Gamp é criado após dois casos de feminicídios na cidade. Assim seguindo duas grandes vertentes: o enfrentamento das violências brutais contra as mulheres e o fortalecimento das mulheres para a ocupação dos espaços políticos, de decisão, de participação”, relata Eva Santos, coordenadora e cofundadora do grupo.
Muitos serviços, equipamentos e políticas públicas que existem em Pelotas tiveram uma participação ativa do Gamp na luta, na discussão do formato e na implementação. Atualmente muitos deles estão reduzidos ou foram descontinuados. Entre eles a criação da Casa de Abrigo Luciety, do posto policial da mulher, que precedeu a Delegacia de Polícia para a Mulher (Deam), do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Codim), da Vara Especializada em Violência Doméstica e Familiar, e, por consequência, da promotoria especializada, do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) e mais.
O 8M Pelotas nasceu em 2016 como um espaço de articulação coletiva para organizar as ações do Dia Internacional de Luta das Mulheres na cidade, unindo diversos coletivos, entidades e mulheres independentes. A Frente se consolidou a partir da necessidade de um movimento autônomo que ampliasse a visibilidade das demandas das mulheres, com um posicionamento político claro contra a opressão de gênero, raça e classe.
Instituições de ensino também podem ser uma ferramenta de sensibilização. Esse é o caso do Nosotras, formado em 2023 para promover difusão, produção, sistematização e curadoria de conhecimento unida da prevenção com atividades formativas pelo alto índice de violência doméstica. “Pesquisando dados desse tipo em 2022 no RS, totalizamos 52.475 casos. Isto é um número alarmante para o estado, em um ano que tem 365 dias apenas. Estes dados, então, nos provocaram a pensar que, enquanto universidade, era necessário ter algum tipo de enfrentamento mais incidente sobre essa questão”, relembra a prof. Vini Silva, coordenadora do Observatório.
Violência contra a mulher aumentou 0,69% em 2025, no Estado
Uma das principais dificuldades das mulheres que enfrentam violência está no acesso aos serviços de proteção, segundo Vini. “Há uma falta de serviços de proteção no Estado muito grande, e isso repercute nesse maior índice de violência. É preciso pensar em locais adequados para a proteção, em políticas que garantam a emancipação destas mulheres dos agressores, é preciso que os horários de atendimento de delegacia da mulher, de centro de referência de atendimento à mulher, sejam adequados à recepção de todas elas e principalmente das trabalhadoras, que são aquelas onde há maior incidência de violência”, explica.
“Nós iniciamos os dois primeiros meses de 2026 com um número mais absurdo ainda de feminicídios no Estado, indicando um aumento de mais de 50%, com um crime aqui na região sul, em Canguçu, quando Letícia, uma jovem de 36 anos, foi assassinada pelo companheiro. E uma observação também que tem sido feita é o crescimento dos feminicídios nas cidades do interior”, exemplifica Vini.
Quem também confirma a premissa é Eva e a vice-coordenadora do grupo, Janete Flores. “Entendemos que uma política pública, para fazer de fato impacto na redução dos indicadores sociais, de violência, de educação, precisa que o Estado assuma o seu papel. Pelotas, dentro desse quadro nacional, conseguiu criar serviços básicos, mas que são insuficientes. Nós temos defendido que precisamos de mais um centro de referência e em horário estendido. Temos DEAM que funciona só no horário comercial e a Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) onde há uma Sala das Margaridas para atender as mulheres que sofrem violência, mas que muitas vezes, quando chegam no balcão, são expostas, isso nas duas, e essa exposição mostra a desqualificação dos profissionais para atender esse tipo de demanda”, contam.
“Hoje, o chamado lar com a característica romântica, tem sido o lugar mais violento para as mulheres, para as meninas e para os meninos, no que se trata das violências. Então, os casos de violência, feminicídio, tentativa de feminicídio, agressões múltiplas, violência psicológica, nos casos das meninas e meninos, o abuso sexual por familiares, tudo isso está dentro do que é chamado ainda de lar”, completa Eva.
Para Niara de Oliveira, escritora, jornalista e atuante na 8M, a rede de proteção é ficção. “Não dá nem para dizer que a política de rede interligada e interdisciplinar não funciona porque ela nem foi implementada. A mulher em risco precisa ser acolhida em outros tipos de serviços para se estruturar e conseguir romper com o ciclo da violência. A rede que temos não conversa, não faz estudo de caso, então, nesse momento ela e os serviços estão completamente sucateados”, afirma.
Companheiros ou ex-companheiros cometem 84,7% dos feminicídios da Zona Sul
Niara reitera que os números de feminicídio no Brasil hoje revela uma confirmação de uma tendência, com números altos em uma sequência de pelo menos dez anos. No seu livro Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: A narrativa de feminicídios na imprensa brasileira, a autora sustenta que a imprensa é parte do problema com a desumanização das vítimas. “Como é que a gente mede isso? Primeiro os relacionamentos muito breves. Anteriormente dados diziam que uma mulher, antes de ser assassinada ela sofria em média 10 anos de violência doméstica, mas agora temos casos que explicitam outra condição, a do menosprezo à condição de mulher, além da violência extrema com excesso de crueldade no cometimento dos crimes. O que acontece é que nesse momento parece que tanto a sociedade quanto a imprensa resolveram enxergar, os feminicídios nesse momento saíram da invisibilidade”, explica.
Neste 8 de Março, o Observatório está fazendo, de forma particular, um desafio para os homens, para que assumam também a luta pelo fim da violência contra a mulher. “É preciso mudar essa cultura machista, patriarcal e misógina. Impedir o crescimento de grupos nas redes sociais que disseminam o ódio contra as mulheres também contribui, e isso só será possível quando houver um engajamento de toda a sociedade. Em pequenos atos é possível participar sim no nosso cotidiano para ir mudando essa cultura, se cada um não assumir hoje esse compromisso, ela nunca vai acontecer”, pede Vini.
Para o Gamp, as escolas, espaços de trabalho e instituições, devem motivar e conscientizar durante todo o ano o respeito ao corpo alheio. “Não devemos entregar as decisões sobre a nossa vida para outrem, e sim partilhar decisões, ideias, em um relacionamento saudável e quando não está boa a relação, que ela seja desfeita, sem violência para ambas as partes, e quando isso não é possível, buscar ajuda. Ajuda em nós, grupo de mulheres, que estamos sempre dispostas e disponíveis para conversar” aponta Maria Heloisa da Rosa, tesoureira do grupo.
43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico
A cofundadora do Gamp evidencia que o aumento da violência e da percepção de consciência do sujeito mulher ocorrem ao mesmo tempo. “Além do grande número de mulheres que criam seus filhos sozinhas, o que é grave, porque não se tem estruturas públicas de apoio, não se tem lavanderias públicas, transporte coletivo sem tarifa, não tem nada que facilite ou melhore a vida das mulheres, temos um contingente muito maior de mulheres que sabem que não são mais objeto nem posse dos homens, ou de um homem específico”, declara.
As mulheres negras são maioria entre as vítimas de feminicídio em todo o país. Uma análise dos 5.729 registros oficiais desse tipo de crime, ocorridos de 2021 a 2024, mostrou que 62,6% das vítimas eram negras, conforme levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). “A população negra é a principal vítima não só da violência doméstica. Eles sofrem agressões tanto pelas pessoas — pensando no racismo — como pelo Estado, do aparato judicial e policial. O perfil da vítima de feminicídio no Brasil é da mulher negra, jovem, baixa escolaridade, periférica e com filhos. E nisso, a maior parte dos órfãos de feminicídio são negros”, alega Niara.
“Existem tipos de mulheres diferentes: trabalhadoras, negras, periféricas, que durante todas as suas vidas tiveram que lidar com essa questão da sobrevivência, de saberem reconhecer as suas possibilidades de vida, de toda a rede onde buscar a garantia do seu direito, o que isso não necessariamente se traduz em mulheres de uma classe social burguesa”, assegura Eva.
Para a escritora, quando se fala de protagonismo feminino, se está falando de luta, dor e sobrecarga ainda maior de trabalho e de exaustão por conta da dupla ou tripla jornada em casa, com filhos, etc. Além da resistência por se manter chefe no seu espaço de trabalho e se fazer respeitar. “A carga emocional de todas as violências que acontecem para a mulher se manter é gigante, tem assédio, desrespeito e misoginia estrutural. O protagonismo feminino é cansaço e mais uma trajetória para as mulheres”, afirma.
E quem são elas?
Eva Santos tem 65 anos e construiu sua trajetória marcada pela autonomia e pelo engajamento social. Coordenadora e cofundadora da Gamp, sua aproximação com o feminismo começou ainda na juventude. Criada em uma família onde não vivenciou relações de submissão, desenvolveu desde cedo uma postura independente e crítica sobre o papel das mulheres na sociedade.
Aos 14 anos iniciou sua vida profissional, conciliando trabalho e estudos. Ainda adolescente, participou da reconstrução do Grêmio Estudantil do Colégio Municipal Pelotense, em um período marcado pelo regime militar, experiência que fortaleceu seu envolvimento com o movimento estudantil.
Posteriormente, ao ingressar no curso de Serviço Social na UCPel, participou da reorganização do diretório acadêmico e de mobilizações estudantis, ampliando seu contato com debates políticos e sociais. Ao longo da vida, atuou no movimento sindical. Mulher negra, ela afirma que sua trajetória é marcada pela defesa de espaços mais justos e igualitários para todas as mulheres.
Niara de Oliveira é jornalista, escritora e ativista feminista com longa trajetória em movimentos sociais e políticos. Com 54 anos, o sonho de ser jornalista surgiu ainda na infância. O engajamento político começou cedo, aos 14 anos quando já participava de espaços de militância e, aos 16 se tornou a primeira mulher a presidir o Grêmio Estudantil da então Escola Técnica Federal de Pelotas (ETFPEL).
Ingressou na universidade aos 22 anos, formando-se em Jornalismo pela UCPel no final de 97. Durante a graduação, participou do movimento estudantil e da direção da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos). Em 1996 tornou-se mãe solo de Calvin, que foi diagnosticado ainda pequeno com Síndrome de Lennox-Gastaut, epilepsia e autismo não verbais, condição que exige cuidados permanentes.
Feminista desde os 19 anos, foi uma das fundadoras do Gamp e, desde 2018, integra a Frente Feminista Antirracista e Anticapitalista 8M Pelotas. Também atua no movimento sindical, sendo diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS e integrante da Comissão de Mulheres Jornalistas da Fenaj.
Vini Silva é assistente social, professora universitária e pesquisadora dedicada às políticas sociais e à defesa dos direitos das mulheres. Graduada, mestre e doutora em Serviço Social, atua como professora no Programa de Pós-Graduação em Política Social e Direitos Humanos da UCPel e coordena o Observatório Nosotras.
Sua trajetória de atuação social começou ainda em 74, trabalhando com diferentes expressões da questão social, entre elas as desigualdades de gênero. Desenvolveu iniciativas voltadas à organização e ao fortalecimento de grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade. Na Cáritas Arquidiocesana de Pelotas, participou da criação de projetos de formação e valorização de trabalhadoras domésticas, processo que contribuiu para a organização da categoria no município.
Também esteve envolvida na realização de encontros regionais de mulheres voltados à discussão de direitos, equidade de gênero e emancipação feminina, em um período em que esses temas ainda eram pouco debatidos publicamente.



