
No coração do Centro Histórico de Pelotas, o Museu do Doce preserva tradições centenárias, e uma vez por semana, o silêncio do Casarão 8 dá lugar a conversas, trocas e histórias que não estão em exposição. O grupo Doces Linhas: Bordados no Museu do Doce começou em 2017, dentro de uma disciplina da Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O que era aula virou projeto de extensão e hoje reúne 18 mulheres na produção da arte.
Além de linhas e agulhas, os encontros semanais se transformaram em espaço de convivência, criatividade e preservação da memória cultural. As integrantes compartilham memórias, experiências e histórias de vida enquanto bordam referências da cidade, da cultura doceira e do cotidiano, cada uma com sua criatividade. Entre algumas ações do grupo estão a participação do projeto internacional Blue Jeans Sisters. O grupo enviou em 2019, 30 bonecas confeccionadas durante encontros para a Austrália. No mesmo ano, elas colaboraram na exposição “Doces Bordados” da Fenadoce.
A coordenadora do grupo, Maria Antonieta Dall’Igna, conta que o projeto nasceu de um convite inesperado. Professora aposentada, ela já bordava há anos quando foi incentivada pela filha, Carla Gastaud a participar da Unati. “Eu sempre fui professora. Quando me aposentei, minha filha me desafiou a continuar fazendo alguma coisa diferente. Foi aí que oferecemos a disciplina sobre bordado e começou tudo”, relembra. Após o termino do semestre, a artesã não ficou satisfeita com a disciplina em si e propôs a criação do grupo para o Museu.
Segundo ela, o grupo passou a ocupar também um espaço afetivo em sua vida. “Uma das coisas mais importantes aqui é o companheirismo. Existe uma solidariedade e uma amizade muito grande entre nós. O grupo só me dá alegria”, afirma. O Doces Linhas também encontrou no museu um espaço de pertencimento. Antonieta destaca que a convivência dentro do Casarão 8 fortalece os vínculos e amplia o contato das participantes com a cultura. “A gente acha que o museu é nosso. Somos tratadas com muito carinho e nos sentimos muito à vontade aqui. Esse lugar amplia os nossos horizontes”, diz.
Bordado como memória e expressão
Ao longo dos anos, as integrantes desenvolveram trabalhos inspirados em prédios históricos, patrimônios culturais e elementos ligados à identidade de Pelotas. Uma das participantes do grupo, Nara Regina Berndt, lembra que se aproximou ainda mais do projeto quando começaram a bordar referências da cidade. “Quando a Antonieta disse que nós iríamos bordar lugares de Pelotas, eu pensei: ‘isso eu quero’. Desde então, não saí mais daqui. Estou sempre bordando, não é por dinheiro, é porque eu gosto de fazer”, conta.
A aposentada, que pratica ‘desde que se conhece por gente’, diz que a prática acompanha diferentes momentos da vida. Ela produz encomendas, trabalha com customização de roupas e dá aulas na Associação Pelotense de Artesãos, localizada na Galeria Zabaleta. “Mas meu pai é muito econômico, minha mãe mais ainda. Então eu pegava as roupas antigas e bordava por cima. Eu adoro transformar e criar em outra coisa. Bordar dá uma nova vida para as peças”, explica.
Além da produção artística, os encontros são marcados pelo convívio. Às quartas-feiras se tornaram compromisso fixo para o grupo, que também compartilha cafés e conversas durante as tardes no museu. “Para mim é tudo de bom. Nunca estou cansada para vir para cá”, diz Nara.
Terezinha Cossio, de 94 anos, é a mais idosa do grupo e já faz parte do projeto há oito anos. Convidada pela amiga Brunilda, ela não perde nenhuma reunião, mesmo já sabendo bordar desde os nove anos. A professora aposentada também destaca o laço de amizade que construiu com outras bordadeiras. “Eu fico triste se eu não venho, faço meu bordado com calma, converso, aprendo com as amigas, eu adoro”, relata.
Museu aberto à comunidade
Para a diretora do Museu do Doce e coordenadora adjunta do projeto, Noris Leal, o grupo reforça a função social do espaço e aproxima a Universidade da comunidade. Ela destaca que as participantes também colaboram diretamente na preservação da memória cultural ligada à tradição doceira pelotense. “Muitas dessas mulheres são doceiras e possuem conhecimentos que nos ajudam na preservação do acervo. Elas participam da construção dessa memória cultural”, afirma.
Segundo Noris, o grupo já participou de exposições, projetos sobre patrimônio histórico e até da produção colaborativa de um livro de receitas do museu. “Não podemos pensar o trabalho delas apenas como artesanato. É arte, cultura e preservação da memória”, ressalta.
Confira registros:



