
A criação da Casa Casulo, em Pelotas, marca um passo inédito na Zona Sul do Estado. Idealizada pela diretora do Coletivo T Juliana Martinelli, Jerci Cardoso, a iniciativa busca oferecer acolhimento a pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade, indo além de abrigo emergencial ao propor caminhos de autonomia e reintegração social.
O projeto, que ainda está em fase de estruturação, ganhou visibilidade nas redes sociais (@coletivotjuju) e mobilizou uma rede de apoio que ultrapassa o Rio Grande do Sul. Doações têm chegado de diferentes cidades e até do exterior, impulsionando a criação do espaço, que agora, está arrecadando fundos. “A casa está acontecendo porque as pessoas estão se predispondo a ajudar, mesmo que seja com pouco. É um trabalho de formiguinha. Conseguimos uma rede empenhada em prol de uma coisa que não deveria ser sido nós, público comum, a oferecer. Mas, estamos aqui. Então, a casa vai muito além do que ela parece ter. Muitas pessoas comentaram nos vídeos, isso me trouxe muita esperança”, afirma Jerci.
Acolhimento que vai além do abrigo
A ideia da Casa Casulo não é recente. Segundo a idealizadora, o projeto começou a ser pensado há cerca de uma década, inicialmente como um espaço de convivência para a comunidade. Com o tempo, a proposta evoluiu para um local de acolhimento diante da realidade de expulsões familiares, violências e falta de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.
Hoje, mesmo antes da inauguração, a demanda já existe. A iniciativa conta com uma lista de espera que supera a capacidade inicial da casa, prevista para atender até seis pessoas. “Já tivemos gente batendo na porta pedindo acolhimento. Isso mostra que a necessidade é urgente. Nossa intenção é abrir o quanto antes, mas a infraestrutura ainda não está pronta para isso”, relata a diretora.
Além de oferecer abrigo, o projeto tem como foco a construção de autonomia. A proposta inclui a oferta de cursos profissionalizantes, apoio jurídico e acompanhamento psicológico por intermédio de uma rede de voluntários. Parcerias com instituições de ensino e profissionais de diferentes áreas estão sendo organizadas para garantir formação e inserção no mercado de trabalho. “A gente não quer só dar comida e um lugar para dormir. Queremos mostrar que é possível seguir adiante, estudar, trabalhar, ter perspectiva”, explica Jerci.

Desafios financeiros e falta de apoio público
O funcionamento da casa dependerá, principalmente, da continuidade das doações. A estimativa é de que o custo mensal para manter seis moradores gire em torno de R$ 12 mil, incluindo aluguel, alimentação e despesas básicas. Além de contribuições financeiras, o coletivo também busca itens como colchões, beliches, roupas de cama, vestuário, alimentos e computadores.
Apesar do apoio popular, a idealizadora aponta a ausência de políticas públicas efetivas como um dos principais entraves. “Nós temos uma gama muito grande de pessoas que optaram por morar na rua porque cansaram de lutar, de correr e não chegar a lugar nenhum. O poder público não está auxiliando em nada com isso. As igrejas auxiliam, os clubes auxiliam, mas o poder público em si não faz muita coisa. Não vai lá, não conversa, porque, às vezes, a pessoa só precisa de um momento de conversa, um momento de escuta e são coisas que não acontecem. Um pequeno detalhe pode mudar o dia dessa pessoa. Não dá para esperar pelo governo, por instituições LGBTs, por conselhos estaduais, municipais”, conta Jerci.
Voluntariado é essencial
Para Fernando Blume, que auxilia o coletivo, a Casa Casulo surge para preencher uma lacuna histórica no município. “Eu sempre entendi que desde o momento em que pudesse ajudar a minha comunidade eu o faria com a maior determinação. A Casa Casulo veio de encontro a esse pensamento, os espaços precisam ser diversos e plurais, já conhecia a Jerci antes mesmo de apoiar de forma mais concreta o projeto, foi entendo e cuidado dela que pude perceber que podemos ser mais e que ela pode ir além, ela com toda certeza me faz acreditar cada vez mais no trabalho que realizo com ela e com minha equipe aqui no meu espaço, o Salão Blume Hair”, diz.

“Vivemos em um estado marcado por violência e preconceito e ter uma casa que acolhe uma comunidade que precisa tanto de cuidado reforça ainda mais que somos humanos e que lutaremos por nossas histórias, nossa casa significa esperança. É lindo ver que toda a comunidade ainda detém o poder de mudar a história e de fazer o bem e sabendo a quem está fazendo.”, completa Blume.
A expectativa do grupo é que a casa comece a funcionar entre 30 e 90 dias, dependendo do avanço das obras e da chegada de novos recursos. A proposta, no entanto, vai além da abertura do espaço, a intenção é transformar a Casa Casulo em referência regional no acolhimento e na promoção de direitos. Enquanto isso, o projeto segue sendo construído coletivamente. “Fome e solidão têm pressa, e isso dói”, resume Jerci. “A gente está correndo para que essas pessoas tenham, o quanto antes, um lugar onde possam se sentir seguras e recomeçar”, conclui.
Para fazer a diferença no Coletivo e na Casa Casulo, você pode entrar em contato pelo telefone (53) 984128492 para doações ou pode enviar um pix de qualquer valor para o CNPJ 42.526.563/0001-68 (Organização da Associação Civil Coletivo T Juliana Martinelli).
Quem foi Juliana Martinelli?
O nome do coletivo carrega a história de uma das principais referências do ativismo LGBTQIA+ em Pelotas. Juliana Martinelli atuou junto à população em situação de vulnerabilidade, especialmente em pessoas trans e travestis. Com formação em magistério, ela desenvolveu projetos comunitários que incluíam visitas a pontos de prostituição, ações de prevenção ao HIV/AIDS e, principalmente, escuta ativa. Seu trabalho se estendia para cidades para além de Pelotas. Juliana morreu após complicações de saúde. O coletivo que leva seu nome foi criado anos depois por pessoas que conviveram com seu trabalho, como Jerci, e decidiram dar continuidade à atuação.




