Estudos produzidos na UFPel são o maior acompanhamento populacional da América latina

Pelotas é única cidade do mundo com cinco Coortes realizadas a cada 11 anos. (Foto: Divulgação)

Há 44 anos, milhares de pelotenses têm suas trajetórias acompanhadas por uma pesquisa que se tornou referência mundial. As Coortes de Nascimento de Pelotas, iniciadas em 1982 e repetidas em 1993, 2004, 2015 e agora em 2026, monitoram desde o nascimento aspectos relacionados à saúde, comportamento, condições sociais e desenvolvimento humano. Os estudos conduzidos pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia (PPGEpi) da UFPel ajudaram a fundamentar políticas públicas no Brasil e seguem revelando como desigualdades sociais impactam a vida da população ao longo das décadas.

Coordenador das Coortes, Fernando Wehrmeister destaca que um dos principais diferenciais do estudo está na taxa de acompanhamento dos participantes comparada com outros estudos do tipo. “Somos a única cidade do mundo com cinco Coortes realizadas a cada 11 anos, o que permite entender o que mudou na saúde dos pelotenses ao longo de 44 anos”, afirma.

Segundo ele, as pesquisas contribuíram para importantes avanços na saúde pública brasileira, especialmente nas áreas materno-infantis. Entre os resultados que influenciaram políticas públicas estão estudos sobre os primeiros mil dias de vida da criança, amamentação exclusiva até os seis meses e recomendações sobre o bebê dormir de barriga para cima para reduzir riscos à saúde. “A ciência bem-feita, até virar política pública, pode levar um tempo maior, pensando na construção do conhecimento”, observa.

Além de acompanhar indicadores biológicos, as Coortes também permitem analisar mudanças sociais ao longo das gerações. Wehrmeister ressalta que houve redução das desigualdades em saúde nas últimas décadas, embora elas ainda persistam. “Devemos focar em reduzir essas desigualdades e não deixar nenhum grupo populacional para trás”, defende. O principal desafio apontado pelo coordenador é o financiamento. Ele conta que editais de agências de fomento, em geral, são insuficientes para acompanhar uma das Coortes em determinada idade, por exemplo. Porém, ao longo dos anos, o projeto tem conseguido manter parcerias com o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde.

Os estudos conduzidos pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel ajudaram a fundamentar políticas públicas no Brasil. (Foto: Divulgação)

Ciência que acompanha a vida
Pesquisadora das Coortes, Helen Gonçalves atua principalmente em estudos sobre saúde mental, experiências adversas e desigualdades sociais. Segundo ela, o acompanhamento longitudinal possibilita compreender como fatores sociais e biológicos se relacionam ao longo da vida. “Fatores sociais frequentemente se transformam em fatores biológicos. As condições sociais em que uma pessoa nasce, cresce e vive deixam marcas mensuráveis no corpo, no metabolismo e na saúde mental”, explica.

Entre os dados recentes que mais chamaram atenção da pesquisadora está o aumento da obesidade entre participantes da Coorte de 1993. De acordo com ela, a prevalência praticamente dobrou entre os 22 e os 30 anos, passando de 16,2% para 32,9%. Os índices relacionados à saúde mental também cresceram. “Aos 22 anos, 29,1% apresentavam algum transtorno mental. Aos 30 anos, esse percentual subiu para 32,4%”, relata.

Helen destaca ainda que as perguntas de pesquisa evoluem conforme a sociedade muda. Temas como tempo de tela, insegurança alimentar, empoderamento feminino e impactos das mudanças climáticas passaram a integrar os estudos mais recentes. “Esse é um dos grandes diferenciais de uma Coorte, a capacidade de se adaptar às transformações sociais mantendo o vínculo com os participantes”, afirma.

Participação que transforma
Participante da Coorte de 2004, Bárbara Carvalho acompanha o estudo desde o nascimento. Hoje estudante de Jornalismo na UFPel e bolsista na área de comunicação das Coortes, ela afirma que a experiência sempre foi próxima e acolhedora. “Desde pequena eles buscavam deixar tudo muito lúdico, para que a gente não tivesse medo dos exames”. Bárbara lembra, por exemplo, de um exame de densitometria óssea apresentado às crianças como uma cabine de fotografias.

Ela relata que a participação no estudo teve impacto direto em sua saúde. Foi durante avaliações realizadas pela equipe que familiares perceberam sinais de obesidade infantil e alterações no colesterol. “A partir dali busquei atendimento com nutricionista e comecei a entender melhor minha saúde. Além disso, meu primeiro contato com um psicólogo foi também na Coorte, quebrando alguns padrões de que psicólogos são feitos para loucos”, diz. Para a universitária, participar das Coortes também gera senso de pertencimento. “A gente percebe como pode contribuir para o avanço da ciência no país e no mundo”, completa.

Relação de confiança com as famílias
A ligação entre pesquisadores e participantes também se estende às famílias. Mãe de Bárbara, Valesca Pereira conheceu o projeto ainda na maternidade, um dia após o parto. “No início eu queria entender por que faziam tantas perguntas, mas fui percebendo o cuidado e o acompanhamento do desenvolvimento dela”, relata.

Valesca afirma que a pesquisa ajudou tanto nos cuidados com a filha quanto em sua própria experiência como mãe adolescente. “É gratificante ver a evolução dela junto do projeto, pois era só umas perguntas e, no entanto, isso ajudou muito a mim quando fui mãe na adolescência e me sentia tão incapaz e o pessoal da Coorte ajudou bastante”, conta. Ela acredita que os participantes têm acesso ampliado a informações sobre saúde e desenvolvimento. “Acho um desperdício quem tem a oportunidade de participar e se nega. É um ótimo complemento de informações”, opina.

Além de acompanhar indicadores biológicos, as Coortes também permitem analisar mudanças sociais ao longo das gerações. (Foto: divulgação)

Novo ciclo em 2026
Em Pelotas, mais de mil bebês já fazem parte da Coorte de 2026. Entre as meninas, os nomes mais frequentes são Aurora e Helena. Já entre os meninos, Arthur e Ravi aparecem entre os mais registrados. Neste ano, Pelotas e São Luís (MA) iniciaram simultaneamente novas Coortes de nascimento. As cidades integram o Consórcio RPS (Ribeirão Preto, Pelotas e São Luís), iniciativa que reúne universidades, equipes de saúde e famílias de diferentes regiões do país.

A expectativa é acompanhar entre três mil e cinco mil bebês nascidos ao longo do ano em cada município. O objetivo é compreender desde as condições da gestação, parto e primeiros anos de vida até fatores ligados à alimentação, moradia, acesso ao cuidado e proteção social. Os estudos também permitem identificar desigualdades que impactam o desenvolvimento infantil e ajudam a orientar políticas públicas voltadas à primeira infância para a população brasileira.