Entre tecnologia e educação, museus da cidade buscam captar o olhar dos jovens

Museu do Doce promove atividades educativas para crianças durante as visitações. (Foto: Divulgação)

Pelotas é formada pela sua arquitetura, os tradicionais doces de origem europeia e seus artistas nativos. Os museus da cidade exercem a função social de manter essa história viva, indo além de simplesmente preservar objetos, mas também servindo como um espaço de inclusão e educação. Atualmente, o Museu do Doce, o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (MALG) e o Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, vinculados a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), têm investido em atividades e alternativas que atraiam o público jovem da cidade, a fim de garantir a valorização do município e de suas raízes às novas gerações.

Conforme Nóris Leal, diretora do Museu do Doce, o local sempre foi frequentado por estudantes e pesquisadores, contando com uma variedade de público que vem sendo construída ao longo do tempo. “Nós temos visitas escolares de forma frequente, estamos conquistando essa faixa etária com um trabalho mais orientado para eles, porque éramos mais visitados por adultos e, agora, as escolas têm visto o museu como uma ferramenta de ampliação dos estudos”, conta.

Segundo a diretora, o ano passado foi repleto de atividades e ações realizadas diretamente nas escolas, por meio do programa “Museu-Escola e Bairro”, o qual oportunizava que atividades fossem realizadas diariamente em determinadas turmas. “O público jovem vem ao museu quando tem atividades que lhe parecem mais interessantes, com programação cultural, as quais temos desenvolvido bastante”, diz. Outra iniciativa é o “Pelotas Noite Adentro” que, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, dá a possibilidade de as pessoas visitarem o local em horários diferenciados.

Inclusão e representatividade
No MALG a juventude também tem a escola como um caminho até o museu. De acordo com Thaís Cristina Sehn, diretora adjunta, nessas visitas, os jovens têm a oportunidade de participar de atividades como desenho e oficinas de música. “Recentemente alguns alunos da disciplina de arte e cinema fizeram um stop motion a partir do MALG. Foi bem legal de ver eles usando as imagens e essas novas formas de contar histórias. Eu acho que uma maneira de atrair o público é trazer conteúdo de uma forma interessante visualmente”, pontua. Além disso, segundo a diretora Lizângela Torres, “eles são atraídos por meio de divulgação da programação em redes sociais, de proposição de atividades educativas junto às escolas e através de fomento a eventos voltados para a cultura de interesse juvenil”, complementa.

O Pelotas Noite Adentro marcou o museu artístico. Segundo Thaís, o evento oportunizou que pessoas de diversas faixas etárias visitassem o local em horários diferentes do habitual. Outro projeto significativo foi a exposição de Hip Hop. “Ela surpreendeu pela adesão do público jovem. Pessoas que geralmente não frequentam o local e gostam desse estilo puderam se sentir incluídos e representados”, relembra.

O MALG realiza ações voltadas para as artes do desenho, música e cinema. (Foto: divulgação)

Natureza e juventude
No Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, as escolas também têm se consolidado como uma das visitas mais assíduas, de acordo com Carolina Silveira, assistente administrativa. Ainda, atualmente, pequenos grupos de familiares e amigos tem se organizado para prestigiar o local. “O museu possui exposições distintas para diversificar e contemplar os visitantes de todas as idades. Estamos com duas exposições temporárias sobre dinossauros e sobre restauro”, detalha.

Segundo a assistente, a exposição “De volta à origem: os dinossauros surgiram aqui” tem sido muito procurada pela juventude. “Oferecemos oficinas, por meio de projetos, envolvendo os alunos de diferentes cursos da UFPel, atuando em iniciativas com o objetivo de ter equipes cada vez mais interdisciplinares, criando um espaço de interação e criação”, ressalta.

O Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter utiliza objetos lúdicos para prender
a atenção dos mais novos. (Foto: Divulgação)

Dificuldades fazem parte
Para Nóris, atrair o olhar jovem é uma missão. Segundo ela, as iniciativas, quando bem divulgadas, têm a capacidade de despertar o interesse de públicos diferenciados. “Não é só nos museus, mas existe uma mudança de olhar sobre todas as questões da sociedade para esse público jovem. São pessoas que gostam de coisas muito ágeis, e o papel das instituições também é entender essa visão dos jovens sobre determinadas coisas, porém, não só se adaptar ao que o público quer, mas sim proporcionar atividades em que possam se interessar”, completa.

Ela pontua que, atualmente, o principal desafio para despertar o interesse das novas gerações pelo patrimônio histórico, artístico e científico é gerar o verdadeiro entendimento do significado desses termos para os jovens. “A nossa chave de mudança é como as escolas trabalham esse patrimônio, como os professores veem isso como uma forma de desenvolver os seus conteúdos e de que esses jovens se identifiquem com esse patrimônio. Assim como nas instituições temos a obrigação de entender o que os jovens se identificam, quais são as suas linguagens”, diz.

O sentimento de pertencimento também figura entre os desafios para Thaís. Segundo ela, é necessário que a juventude perceba que está inserida na história da cidade. “Queremos envolver esses jovens aqui para que eles percebam que é preciso cuidar das obras e manter o museu vivo. Por isso a importância desses eventos que tragam formas diferentes de ver a arte”.

Tecnologia deve somar, não substituir
Já no Carlos Ritter, a disputa com a tecnologia se destaca entre os obstáculos. “O grande desafio é a comodidade das redes sociais. Pensando nesse aspecto, estamos desenvolvendo atividades por meio das redes sociais, como jogos on-line e curiosidades sobre os animais. Projetos de educação ambiental estão sendo feitos para contribuir com um futuro mais sustentável para as novas gerações”, confirma Carolina. Ela afirma que o museu tem se empenhado para ser cada vez mais interativo e interdisciplinar a todos.

No Museu do Doce, a tecnologia é vista como aliada. Entretanto, o papel do museu deve se manter vivo. “Ela é uma ferramenta que pode ser atrativa, mas ela não pode cumprir a finalidade de uma instituição museológica. Ele tem que ser um dos meios a serem utilizados”, diz Nóris. Por isso, as redes sociais do museu têm sido constantemente alimentadas com programações e bastidores do acervo e da reserva técnica.

Os museus da cidade exercem a função social de manter essa história viva, indo além de simplesmente preservar objetos. (Foto: Divulgação)

No MALG, Thaís observa que a inovação pode auxiliar até mesmo nas iniciativas da instituição. “A tecnologia não é só o digital, o digital é uma das formas de tecnologia. Tivemos uma exposição que contou com uma obra interativa que fez o maior sucesso. Agora estamos com uma que retrata um pouco de toda a história do Gotuzzo. Uma das coisas que fizemos foi colocar uma televisão passando foto de álbuns pessoal dele com um slideshow, então a pessoa visualiza a vida desse artista, pois essas fotografias humanizam a exibição”, finaliza.

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