
Em Pelotas, tradição não vive apenas nas páginas dos livros, nos monumentos históricos ou nas celebrações de setembro. Ela ocupa galpões, atravessa gerações, organiza rotinas e encontra novos significados no cotidiano de quem mantém os Centros de Tradições Gaúchas (CTG) ativos durante todo o ano. Em meio a ensaios de invernadas, oficinas culturais, rodas de conversa, campanhas sociais e encontros familiares, os CTGs se transformaram em ambientes de convivência e pertencimento em uma cidade que construiu sua identidade a partir do encontro entre referências urbanas, intelectuais e rurais.
A história do tradicionalismo pelotense pode ser contada por diferentes caminhos, mas alguns deles passam inevitavelmente pela trajetória da Centenária União Gaúcha João Simões Lopes Neto e do CTG Carreteiros do Sul, duas entidades separadas pelo tempo de fundação, mas conectadas por manterem viva uma cultura que continua em movimento.
Uma tradição anterior
Quando se fala em tradicionalismo gaúcho, é comum associar sua consolidação à metade do século XX. Mas em Pelotas existe uma entidade cuja origem antecede esse processo. Fundada em 1899, a União Gaúcha João Simões Lopes Neto é considerada a entidade tradicionalista em atividade mais antiga do Rio Grande do Sul. Surgida em uma Pelotas marcada pela prosperidade econômica das charqueadas e pela forte influência europeia, nasceu em um momento em que valorizar a cultura regional também significava afirmar uma identidade própria diante das transformações urbanas.
A instituição teve entre seus sócios-fundadores o escritor João Simões Lopes Neto, que posteriormente assumiria sua presidência. Segundo a entidade, o objetivo sempre foi preservar o patrimônio moral, histórico e cultural Sul-rio-grandense, estimulando manifestações como poesia, música, dança e práticas ligadas à cultura campeira.
Para Letícia Aguilera, chasque (mensageira) da União Gaúcha, o papel da entidade ultrapassa a preservação histórica. “Diferente de outras regiões, em Pelotas o tradicionalismo se manifesta através da palavra, do conto, da poesia e do teatro. A cultura pelotense orgulha-se de suas Letras; logo, o tradicionalismo local se orgulha de ser o guardião de um imaginário rico, habitado pelo Negrinho do Pastoreio, por Blau Nunes e pelas lendas que Simões Lopes Neto imortalizou”, pontua.
O tradicionalismo que entrou pela escola e ficou na cidade
Se a União Gaúcha nasceu no século XIX, o CTG Carreteiros do Sul surgiu de outro movimento social. Fundado em 1966 por alunos da então Escola Técnica de Pelotas, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), o CTG nasceu do desejo de estudantes vindos do interior em manter costumes e vínculos culturais enquanto viviam na cidade. Ao longo das décadas, deixou de ser apenas um espaço estudantil e passou a reunir ex-alunos, servidores e comunidade externa.
Segundo Viviane Lemos, diretora do Departamento Cultural do Carreteiros do Sul, a permanência da entidade está diretamente ligada à capacidade de adaptação. “Existem muitos desafios para a manutenção de um CTG ativo na atualidade, dentre eles podemos citar a questão financeira, outro fator a ser considerado é o fato de que a cultura gaúcha nos últimos anos não é muito difundida na cidade o que torna lento o ingresso de jovens no movimento, muitas vezes a falta de informações traz a estes jovens uma falsa ideia de que o CTG é algo ultrapassado que em nada se relaciona com a atualidade da juventude”, explica.
Para enfrentar esse cenário, a entidade ampliou suas atividades e passou a ocupar diferentes frentes. Além dos ensaios das invernadas mirim, juvenil, adulta e xirú, o cotidiano inclui oficinas de declamação, seminários, ações solidárias, pesquisas sobre cultura gaúcha e atividades de formação.
Quando setembro termina
Existe uma imagem consolidada de que o tradicionalismo aparece apenas durante a Semana Farroupilha. Quem vive a rotina dos CTGs descreve outra realidade. Nos galpões, o calendário não termina em setembro. Ensaios semanais, preparação para rodeios artísticos, oficinas culturais, atividades campeiras e ações comunitárias mantêm os espaços em funcionamento durante todo o ano.
No caso da União Gaúcha, as invernadas continuam sendo o principal ponto de encontro. As atividades envolvem diferentes faixas etárias e se tornaram um mecanismo de convivência entre gerações. A entidade também destaca o funcionamento contínuo do Parque Ildefonso Simões Lopes, onde famílias utilizam diariamente as cocheiras e mantêm vínculos para além dos eventos oficiais.
Já no Carreteiros do Sul, os rodeios artísticos e atividades coletivas relacionadas à dança concentram grande parte da mobilização anual. Esses encontros sustentam redes de amizade e pertencimento.
Entre avós, filhos e netos
Ao contrário da ideia de que o tradicionalismo envelheceu junto com suas estruturas, as entidades apontam um movimento de renovação. Na União Gaúcha, famílias que começaram sua relação décadas atrás hoje acompanham netos nas invernadas. Um dos exemplos citados pela instituição é o da vice-patroa Marlene Lopes, como a coordenadora da invernada mais antiga do Rio Grande do Sul.
“Muitos dos integrantes da atual invernada adulta cresceram acompanhando seus pais e avós nas atividades do CTG e, hoje, trazem seus próprios filhos para vivenciar o tradicionalismo. Além de fazer parte de uma família com três gerações na entidade, Marlene é reconhecida como a coordenadora de invernada mais antiga do Rio Grande do Sul, dedicando-se há mais de 30 anos à coordenação da Invernada Artística Adulta. É um ciclo que se renova naturalmente, fortalecendo os vínculos entre gerações e mantendo viva a tradição”, explica.
No Carreteiros do Sul, algumas famílias permanecem desde os anos 1970 e já chegaram à terceira geração de participação. A renovação, no entanto, não acontece automaticamente. Segundo as entidades, ela depende de aproximação com os jovens, diálogo com novos formatos de comunicação e capacidade de mostrar que tradição não significa rejeição ao presente.
Tradição e modernidade
Outro movimento apontado pelas entidades é a ampliação do espaço ocupado pelas mulheres dentro do tradicionalismo. Se historicamente muitas funções femininas estavam concentradas em papéis específicos, hoje mulheres assumem coordenações, departamentos e cargos de decisão. Na União Gaúcha, a patronagem é atualmente composta majoritariamente por mulheres. Segundo a entidade, elas atuam diretamente na organização das atividades e na manutenção cotidiana do espaço.
No Carreteiros do Sul, a presença feminina acompanha a história da própria instituição. Desde o grupo fundador até a retomada das atividades nos anos 2000, mulheres estiveram envolvidas nos processos de reconstrução e liderança. Para diretora do Departamento Cultural, esse avanço acompanha mudanças mais amplas da sociedade. “O tradicionalismo gaúcho é, em sua essência, um movimento social, acompanha a vida e os movimentos da sociedade. Quando o Carreteiros retomou suas atividades após quatro anos fechado, tivemos novamente uma participação ativa de mulheres, como por exemplo a prenda Priscilla Fonseca que tomou a frente para que este retorno fosse possível, também tivemos três mulheres, em diferentes momentos no comado da entidade”, ressalta.

à capacidade de dialogar com o presente. (Foto: divulgação)
Apesar das diferenças de origem e trajetória, União Gaúcha e Carreteiros do Sul compartilham o mesmo entendimento sobre que manter a tradição não significa reproduzir o passado exatamente como ele foi. Nas duas entidades, a permanência do tradicionalismo aparece ligada à capacidade de dialogar com o presente. Redes sociais passaram a divulgar atividades e aproximar novos públicos e os galpões deixaram de ser vistos apenas como locais de celebração para também funcionarem como ambientes de convivência, formação e construção de identidade.
Segundo o Carreteiros do Sul, para que haja este equilíbrio é importante ter uma base forte, possibilitar aos jovens o entendimento da preservação dos valores tradicionalistas. “Em nossa carta de princípios estão descritos valores importantes para a conduta tradicionalista que perpassam as questões das diferentes gerações; também temos o embasamento na Tese ‘O Sentido e o Valor do Tradicionalismo’ que transcorre justamente sobre a importância de conciliar a tradição e a cultura dando atenção às novas gerações”, afirma.
Na União Gaúcha, a tradição também é entendida como algo vivo. A entidade defende que respeitar a história não impede transformações e que o fortalecimento do tradicionalismo depende justamente da capacidade de acolher diferentes realidades sem perder sua essência. “Pelotas é uma cidade cinzenta no inverno, fria, úmida, marcada pela neblina da Lagoa dos Patos e pelo vento minuano que corta as esquinas dos casarões antigos. O tradicionalismo, na vida real das pessoas, é o calor que bate de frente com esse frio. Para quem vive aqui, as entidades tradicionalistas, assim como a União Gaúcha são lugares onde as famílias se encontram para fugir da rotina”, conclui.



