Projeto da UFPel busca reconhecimento da Unesco para Geoparque Paisagem das Águas, no estuário da Lagoa dos Patos

Pontal da Barra, em Pelotas, forma conexão do Canal São Gonçalo com a Lagoa dos Patos. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

Reconhecimento, conservação e desenvolvimento sustentável são pilares da criação de um geoparque. O termo que categoriza áreas reconhecidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) se refere a locais onde características geográficas e paisagens únicas possuem relevância internacional. É justamente isso que o projeto Geoparque Paisagem das Águas está buscando, na região Sul.

Idealizada na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a iniciativa faz parte de um projeto de extensão multidisciplinar que busca trazer o reconhecimento para o estuário da Lagoa dos Patos, como explica o doutor em Geografia e professor da universidade, Adriano Simon. “Esse projeto busca justamente valorizar esse patrimônio natural, as singularidades desse patrimônio natural e as relações com todo um patrimônio cultural já conhecido, já bastante explorado, já bastante apropriado”, diz.

Simon ressalta que o propósito do projeto não é restringir o uso da área, mas sim incentivar as atividades que já existem e valorizam o patrimônio natural. “Conservar é continuar utilizando, porém mantendo os seus aspectos e seu funcionamento, a preservação seria restringir o acesso e não é esse o objetivo. Porque a gente entende que a conservação reforça a identificação da população com a região e com os aspectos naturais e culturais, isso vai promover respeito ao meio ambiente e também tende a estimular a curto, médio e longo prazo as atividades econômicas com criação de empreendimentos locais”, detalha.

As atividades em questão já são parte fundamental do funcionamento e imagem costeira da região. Ações que enriquecem culturalmente e deixam sua marca diária a cada trecho dos rios e lagoas podem ser beneficiadas e reconhecidas a partir da criação do geoparque.

“Uma série de comunidades de pescadores que já se usam do estuário para suas práticas de pesca tradicional, nós temos as redeiras, por exemplo, na Colônia Z3 que se valem da paisagem da Lagoa dos Patos para produzir os seus produtos. Nós temos uma série de atividades que já se valem das águas dessa paisagem das águas, dessas características naturais e o objetivo da proposição de um geoparque é justamente fortalecer essas atividades e fomentar mais estratégias econômicas que possam, por meio da identidade da população nesse território, nessa paisagem das águas, implementar atividades econômicas que chamem turistas e que queiram conhecer essa área sob uma ótica de compreensão dessas particularidades e ao mesmo tempo aproveitamento das particularidades locais”, garante.

Canal São Gonçalo é detentor de imponente conexão entre a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

Mas a busca pelo reconhecimento requer apoio, não apenas do corpo acadêmico, mas, principalmente, da sociedade e órgãos públicos. “É diante dessa perspectiva que a gente parte para uma sensibilização da população local e regional do poder público local e regional, dos agentes produtivos locais e regionais para essa singularidade e da importância que a preservação dessa singularidade natural com ênfase nesses corpos hídricos, nesses elementos abióticos tem. Porque se nós temos, no quintal da nossa casa elementos nacionalmente e internacionalmente representativos é importante que a gente se valha deles para gerar crescimento econômico”, pontua.

Neste sentido, ele aponta que o geoturismo já vem sendo entendido pelos gestores como uma atividade que promove destinos por meio de uma visão sustentável e com base no conhecimento desse meio físico.

Com a aprovação da Unesco, o território poderia contar com um reconhecimento mundial, colocando a região do estuário da Lagoa dos Patos sob os holofotes da conversação de paisagens naturais. Mas Simon ressalta que a busca por essa chancela precisa de tempo e de adesão da comunidade. “Um geoparque não vai existir depois que a Unesco der chancela a ele, muito pelo contrário, o geoparque precisa existir para que, na prática, a Unesco possa verificar e compreender que o geoparque já funciona e existe uma rede de pessoas, de gestores público e privados, interessados em promover ações de desenvolvimento sustentável nesse território”, ressalta.

A partir da manifestação de interesse da região, o processo deve correr em torno de três anos: o primeiro voltado para o interesse, elaboração de candidatura, envio do dossiê e checagem pela Unesco, o segundo para avaliação da candidatura com missões de avaliação feitas pela organização e o terceiro ano para enfim chancela oficial e certificado do território.

Para isso, o projeto já tem realizado diversas atividades de divulgação e sensibilização da população pensadas em conjunto com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPel e diversos cursos que integram a ideia. Dentre ações realizadas estão a elaboração de projetos que procurem se atrelar às secretarias de educação dos municípios que fazem parte da iniciativa para possibilitar atividades de formação continuada de professores. “A gente entende que as escolas são importantes disseminadores da ideia do geoparque, do desenvolvimento sustentável e da conservação da natureza”, declara Simon.

Além disso, o grupo pôs em prática a iniciativa Geoparque na Rua, na qual levam uma banca para diferentes bairros e conversa com a população sobre o que significa ter um geoparque na região, explicando de forma simples os conceitos técnicos para as pessoas. “A gente tem recebido muitas visitas interessantes, muitas pessoas curiosas, desde crianças até idosos, desde um público mais leigo até um mais técnico. E a gente percebe que existe uma demanda muito forte, um anseio por parte da população que já ouviu falar no sucesso que os geoparques foram em outros territórios como o Geoparque Caçapava e o Geoparque Quarta Colônia”, indica.

Para conhecer mais sobre o projeto ou entrar em contato com o grupo basta acessar o Instagram @geoparquepaisagemdasaguas.

Paisagem das Águas
O que hoje se vê como uma iniciativa sólida e formada surgiu anos atrás, a partir de outros projetos que foram mapeando as riquezas geográficas da região. Com uma área compreendida em cerca de 8.6 mil km², o estuário envolve territórios dos municípios de Pelotas, Rio Grande, Arroio do Padre, Turuçu, São Lourenço do Sul e São José do Norte, locais onde há uma área bastante nevrálgica deste conjunto de lagoas e dessas planícies.

Mas a escolha do nome deixou de lado os aspectos técnicos dos corpos hídricos e deu enfoque ao que estes representam para o estado. “Quando a gente pensa em paisagens das águas a gente consegue pensar não só na água que tá ali na lagoa, ou no estuário, ou no mar, a gente consegue pensar na água desde a nascente do canal, que vai passar pelo rio, que vai formar uma cachoeira, que vai formar um banhado antes de chegar na lagoa e antes de chegar no mar, ou seja, é um conjunto de paisagens que estão na lagoa, nas suas margens, mas também no interior dos municípios que fazem parte desse projeto”, diz.

“A paisagem das águas também é onde as dunas se formam no município de Rio Grande; também é onde as cachoeiras se formam no interior de Pelotas, Arroio do Padre, Turuçu e São Lourenço do Sul, também são as lagoas doces que se formam dentro do território de São José do Norte, são as ilhas que são específicas desse estuário, são as praias lagunares que são usadas para fins turísticos e de recriação, são os canais que são utilizados para navegação, como o São Gonçalo, que é importantíssimo”, completa.

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