
Nem toda pesquisa vira produto. Entre o laboratório e o mercado existe um caminho complexo que envolve planejamento, testes e validação comercial. E é justamente nesse intervalo que atuam as incubadoras do Pelotas Parque Tecnológico, um ecossistema fundado em 2016 com o propósito de impulsionar a economia baseada em conhecimento na Zona Sul.
Com mais de 5 mil metros quadrados de área construída, o Parque abriga empresas residentes, coworkers, laboratórios e projetos de pesquisa. A infraestrutura funciona como uma ponte estratégica entre o poder público, as universidades locais e a iniciativa privada, transformando a cidade em um polo atrativo para novos investimentos.
Embora o local desenvolva uma série de ações voltadas à inovação regional, é por meio do processo de incubação que as ideias acadêmicas começam a ganhar forma de negócio. As incubadoras oferecem orientação, mentoria e conexões necessárias para que projetos em fase inicial ganhem maturidade e alcancem condições de competir no mercado.
Mais do que isso, segundo a diretora do Pelotas Parque Tecnológico (PPT), Rosâni Ribeiro, elas representam um dos principais pilares do ecossistema por oferecerem o suporte que transforma ideias em negócios sustentáveis. “As incubadoras vinculadas a UFPel, UCPel, IFSul e UniSenac representam um dos principais pilares do Parque (…) Elas funcionam como um importante mecanismo de desenvolvimento de empresas inovadoras, fortalecendo a geração de empregos qualificados, de novas tecnologias e de soluções para desafios da sociedade”, afirma.
Da bancada ao campo
A Conectar, incubadora vinculada à UFPel, acompanha justamente esse processo. O trabalho começa quando uma pesquisa ou uma ideia ainda precisa ser validada, estruturada como negócio e conectada a parceiros e oportunidades.
“Nem sempre o pesquisador ou o estudante que tem uma boa solução tecnológica sabe como transformar isso em produto, serviço, empresa ou impacto econômico e social. A incubadora atua justamente nesse ponto: aproxima o conhecimento técnico da realidade do mercado e do desenvolvimento regional”, explica o coordenador da Conectar, professor Felipe Marques.
A proposta, segundo Marques, é reduzir os riscos enfrentados por empresas que ainda estão dando os primeiros passos. Ele avalia que um dos maiores desafios é aproximar a pesquisa do mercado: “o primeiro desafio é sair da lógica da solução e entrar na lógica do problema. Muitas vezes temos boas tecnologias, bons resultados de pesquisa ou boas ideias, mas ainda falta compreender quem é o cliente, qual dor está sendo resolvida, quanto essa solução vale e como ela pode ser entregue de forma sustentável”.
O coordenador observa que Pelotas reúne uma base científica importante, impulsionada pela presença de instituições como a UFPel e a Embrapa, por exemplo. Para ele, o desafio é transformar esse potencial em negócios que cresçam, permaneçam e gerem emprego e impacto.
Essa realidade aparece na trajetória da Ciclo. A startup nasceu de pesquisas desenvolvidas na UFPel e utiliza microalgas nativas para desenvolver bioinsumos destinados à agricultura, utilizando resíduos da indústria arrozeira em seu processo produtivo.
A empresa teve seu primeiro contato com a Conectar através da indicação de professores da universidade. Segundo o diretor técnico e cofundador da Ciclo, Antônio Pagano, o acompanhamento da incubadora ajudou a estruturar a empresa nos anos iniciais. “Tivemos acesso a mentorias e um acompanhamento do negócio. Isso fez toda diferença no começo. Talvez, estar vinculado a uma incubadora e ao Parque Tecnológico passe segurança e credibilidade para futuros parceiros, clientes e investidores da startup”, afirma.
Para ele, o processo de incubação foi fundamental para que a pesquisa de laboratório se transformasse em um produto capaz de chegar ao mercado. “Um dos maiores desafios foi traduzir a ciência de bancada, que é complexa, em um produto validado e escalável, capaz de atender as demandas do mercado”, explica. “Trabalhar com organismos vivos e biotecnologia é complexo, pois para gerar um produto é preciso pesquisa e desenvolvimento profundo, o que leva tempo”.
Ciência que cuida
O mesmo processo de transição que exigiu tempo e paciência da Ciclo, se repete no setor da saúde. A GenoTrack, startup de biotecnologia voltada à saúde de precisão, percorreu um caminho parecido ao sair da universidade para o mercado. Criada por três pós-graduandos em Biotecnologia da UFPel — William Domingues, Laís Gonçalves e Lucas de Souza —, sob a tutoria acadêmica dos professores Vinicius Farias Campos e Paulo Roberto Ferreira Júnior, a empresa nasceu para preencher uma lacuna nos testes genéticos disponíveis no Brasil.
Anos de pesquisa em genética humana revelaram que a maioria dos exames aplicados no país utilizava tecnologias e bancos de dados baseados em populações europeias. Assim, os pesquisadores identificaram a necessidade de criar algo mais próximo do cenário brasileiro: “Identificamos a oportunidade de criar uma solução mais adequada à realidade genética da população brasileira, aproximando a pesquisa científica da prática clínica”, explica o cofundador da GenoTrack, Domingues.
O acompanhamento da Conectar, por sua vez, alterou a dinâmica e a mentalidade do negócio. O foco inicial, quase totalmente voltado para o aprimoramento da tecnologia, precisou se expandir para dar espaço às regras do mercado. “Antes da incubação, estávamos muito focados na tecnologia em si. Durante a incubação junto a Conectar, estamos aprendendo a validar a solução junto aos usuários, compreender as necessidades dos profissionais de saúde e definir estratégias comerciais”, afirma.
Essa maturidade abriu portas para fora do Brasil. A estrutura obtida na incubadora preparou a equipe para integrar a Jornada Internacional Medicina Genómica y su Implementación en el Sistema Público, no Chile. De acordo com Domingues, a incubação foi um divisor de águas para essa expansão: “nos ajudou a estruturar melhor a startup, ampliar nossa rede de contatos e ganhar maturidade como empresa. Isso contribuiu para que estivéssemos preparados para participar de um evento internacional”.
Próximos passos para o ecossistema
As conquistas de empresas como a Ciclo e a GenoTrack destacam o potencial tecnológico local, ainda que o avanço desse ecossistema em Pelotas enfrente barreiras complexas. Entre os maiores desafios enfrentados pelos gestores estão abrir canais de investimento para negócios que ainda dão os primeiros passos e “segurar” na cidade os talentos formados pelas instituições de ensino locais.
Pensando nos próximos passos, a estratégia do Parque Tecnológico está focada em duas frentes principais: a saúde e a biotecnologia. O plano é transformar a região em um polo de referência nesses setores, aproveitando a estrutura e o conhecimento que já existem nos laboratórios, hospitais e centros de pesquisa da Zona Sul.
O passo mais recente dessa articulação foi o anúncio de uma parceria entre o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), a UFPel e o próprio Parque para a criação do Hub de Inovação em Saúde e Biotecnologia e do Laboratório de Medicina Genômica. Segundo a diretora do PPT, a meta é “posicionar Pelotas como uma referência regional em inovação em saúde e biotecnologia, gerando impacto positivo na qualidade de vida da população e no desenvolvimento econômico da região”.



