Dia das Mães evidencia desafios de mulheres que conciliam filhos e graduação

Andressa é mãe solo do pequeno Benício, de quatro anos, e divide seu tempo entre estudos, trabalho e maternidade; Anelise tornou-se mãe de Joaquim há 5 meses, e busca seu futuro na carreira acadêmica. (Foto: divulgação)

O Dia das Mães tem refletido diferentes realidades no Brasil, entre elas a das mulheres que conciliam a maternidade, os estudos e a sobrecarga emocional. Introduzida no país em 1918 pela ACM (Associação Cristã de Moços) e oficializada em 1932 pelo presidente Getúlio Vargas, a data busca homenagear todas aquelas que exercem um papel materno na sociedade. Atualmente, a celebração da maternidade, independentemente da configuração familiar, vem ganhando ainda mais sentido.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 7,8 milhões de mulheres criam os filhos sozinhas no país, representando 13,5% das famílias. Enquanto isso, apenas 1,2 milhão de homens estão na mesma situação. Em Pelotas, conforme dados estimados pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, 174 mil famílias são chefiadas por mulheres.

A chefe da pasta, Marielda Medeiros, afirma que o perfil das mães atendidas pelos serviços sociais envolve, principalmente, mulheres vulneráveis, em situação de violência doméstica, desempregadas, chefes de família e/ou com filhos pequenos. Ademais, no município, “existem pesquisas que mostram o aumento e vulnerabilidade das mães solo, muito ligados às dificuldades de acessos a creches, educação e trabalho”.

De acordo com a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE, em 2022, no país, mães solos tinham o menor rendimento médio entre os arranjos familiares, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge e 11,5% inferior à renda média das mães com cônjuge. Pessoas com cônjuge contam, ainda, com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar. Além disso, a maioria das mães solo são negras (61%) e enfrentam maior vulnerabilidade econômica.

Entre estudos, trabalho e dificuldades cotidianas
Andressa Vaz, de 29 anos, é universitária e mãe solo de Benício Pais, de quatro anos, e afirma que sua rotina exige planejamento para que consiga conciliar suas tarefas e estudos com a maternidade. Mesmo com as dificuldades práticas, ela afirma que o maior desafio ainda é o cansaço emocional. “Ser responsável por tudo sozinha pesa muito. Além disso, lidar com imprevistos, como quando a criança fica doente, acaba afetando diretamente minha frequência e rendimento na faculdade”, diz.

De acordo com ela, ser mãe mudou seus pensamentos e perspectivas, trazendo também novos objetivos. “A maternidade muda muita coisa. Às vezes é preciso adiar planos, escolher oportunidades mais seguras ou flexíveis. Por outro lado, traz mais responsabilidade e motivação para crescer”.

A jovem universitária Anelise Freitas, de 23 anos, mesmo divindo as obrigações de manter um lar com o parceiro, Gustavo Cardoso, conta que costuma estudar de madrugada para conseguir trabalhar e dar atenção ao seu filho Joaquim, de cinco meses, no período diurno. Ela relata que sua principal dificuldade é não se sentir culpada quando não consegue dar conta de tudo que engloba sua rotina.

Falhas nas universidades impactam rotina
Andressa ressalta que a universidade presta assistência às alunas que são mães, no entanto, o auxílio não é suficiente e nem chega em todas que necessitam. “As instituições oferecem auxílios, como bolsas, mas geralmente não é suficiente ou não atende todas as mães. Muitas vezes há burocracia ou poucas vagas, o que limita bastante o acesso. Seria importante ter mais políticas de apoio, como creches dentro da universidade, horários mais flexíveis, compreensão dos professores e ampliação de bolsas específicas para mães. Isso ajudaria muito a nossa permanência na universidade”, pontua.

Anelise percebe os mesmos problemas dentro do ambiente universitário. Para ela, o apoio da docência foi fundamental, mas as instituições de ensino ainda contam com falhas na estrutura. “Meus professores foram excelentes, me incentivando e ajudando, mas a universidade não possui ao menos um fraldário no campus que estudo, e o auxílio começa a funcionar só a partir dos 6 meses”, afirma.

Maternidade que resiste às adversidades
Para Anelise, a maternidade veio para impulsionar seus objetivos e permitir que seus sonhos sejam ainda maiores. “Ter um filho só me deu mais motivação para conquistar o meu diploma, apesar de não ser fácil. Hoje eu entendo que posso mudar quantas vezes for preciso se isso significar estar mais presente e construir algo melhor para ele. Isso não diminui meus sonhos, pelo contrário: sigo firme no objetivo de chegar ao doutorado, enquanto empreendo com gestão de mídias sociais. Ser mãe não me fez desistir. Fez redefinir o meu caminho”, destaca.

Andressa afirma que já pensou em desistir, mas também permanece lutando por um futuro melhor pelo seu filho. “A sobrecarga e as dificuldades fazem a desistência parecer uma opção, mas o que me faz continuar é pensar no futuro, tanto o meu quanto o do meu filho. Quero dar uma condição melhor pra nós dois”, finaliza.