
“Dor: pena ou castigo; estado de sofrimento da alma, contrário ao prazer” (Aristóteles)
Uma visão científica, filosófica e poética das coisas do coração
— Doutor, coração dói?
Nos meus 51 anos de prática médica, esta foi uma das mais freqüentes perguntas formuladas pelos pacientes.
Sim, felizmente o coração dói! Respondo a cada pergunta.
“A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão tecidual potencial ou real.”
A dor é uma fiel aliada do homem! A despeito de todos os avanços tecnológicos dos últimos anos, seja no campo diagnóstico, através de teste ergométrico, estudo cardiográfico, cateterismo, cintilografia, tomografia, multi-slice, bem como procedimentos terapêuticos medicamentosos e através de métodos invasivos, como a angioplastia, revascularização miocárdica (pontes de safena e mamária), implantes valvulares e de marca-passo, mesmo assim, as doenças cardio-vasculares ainda são as que mais matam ou as que mais precocemente incapacitam as pessoas ainda em faixa etária produtiva.
Muito se fala e ainda pouco se faz com relação à prevenção das doenças cardiovasculares. Os fatores de risco estão intimamente relacionados ao caráter hereditário da doença, bem como ao estilo de vida do paciente.
Sabe-se há mais de meio século que os chamados fatores de risco coronariano devem ser identificados e enfrentados desde a mais tenra idade.
As chamadas clínicas de check-up tem proliferado, sem que se possa vislumbrar a oportunidade de que em termos de saúde pública a população que não tem acesso aos planos de saúde privados não fiquem à margem das informações básicas de saúde, e que possam com isso prevenir e/ou detectar precocemente as doenças do coração.
O tabagismo, a hipertensão arterial, o diabetes, os distúrbios das gorduras (colesterol e triglicerídios) e do ácido úrico, a obesidade, o sedentarismo, a história familiar de angina, infarto e morte súbita tem sido valorizados como fatores de risco.
“A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo” (Anais Nin)
As verdades médicas e científicas seguem o princípio da relatividade, pois mesmo que sejamos extremamente exigentes ou exageradamente técnicos, existirão situações onde as dúvidas do limite físico, espiritual ou afetivo poderão levar o mais competente profissional à indução ao erro no diagnóstico e na conduta final.
O genial poeta Carlos Drummond de Andrade nos leva a reflexão no seu poema denominado VERDADE:
“A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.”
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades,
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”
Dr. Michel Halal
Cardiologista, Mestre e Professor Adjunto
da Faculdade de Medicina da UFPel



