A sós

Esses pequenos e grandes contratempos do cotidiano, que escapam da nossa alçada e desarrumam os planos pré-estabe­lecidos, parecem acontecer com a intenção de desestabilizar. O imprevisto dentro do previsto. E temos que buscar soluções ime­diatas para nos adaptarmos a situações inusitadas.

Pratica-se o exercício de remendar, consertar, reorgani­zar, reconstruir a nós mesmos, inseridos nesse redemoinho das horas que se atropelam e nos atropelam também.

No somatório do tempo vivido, reconheço que muito “aprendi com a Primavera a me deixar cortar”, como escreveu Cecília Meireles. Porém, nem sempre voltei inteira. Deixei peda­ços, cacos de vidro pelo caminho porque minha alma é um vitral de cristais coloridos que estalam e se partem ao menor tremor. Creio que contigo acontece idêntica realidade.

E tudo é questão a ser resolvida no plano do a sós. É bem assim, quase sempre. Nós a sós.

Giramos o coração entre gemidos na ponta dos de­dos, como disse o poeta Mario Quintana. Equilibramos emoções na corda bamba para impedir a queda e a quebra, num ritual de silêncio.

Os suspiros são solitários. A alma, querendo respirar o ar rarefeito da ausência de preocupações, da inexistência de proble­mas a solucionar, murmura um sopro de inquietude.

Por insistência e teimosia, desenvolvi uma espécie de malabarismo para manter o equilíbrio e não sucumbir entre um suspiro e outro, usando as ferramentas que a vida vai oferecendo em doses de bom senso, discernimento, sabedoria. Lentamente, vou me graduando na escola da existência, aos trancos e solavan­cos, lendo e relendo as lições, a sós.

Só nós sabemos dos colóquios a sós que travamos em si­lêncio. Se forem ditos em voz alta, numa conversa a dois, perdem o sentido, ficam dispersos em frases soltas, que não traduzem exatamente o que sentimos. O território do a sós é inexpugná­vel. Tem a dimensão da própria pele. O “tête-à-tête” pessoal é um bate-papo de igual para igual, de cada um consigo mesmo.

A sós significa que, nem mesmo com o(a) melhor amigo(a) é possível partilhar da misteriosa área do que nos vai na alma. Assuntos de “foro íntimo”, como bem diz a expressão, são processos que transitam e tramitam em tribunais de jurisdição inacessível a quem quer que seja, exceto a nós mesmos, a sós.

Podes tentar imaginar o que ocorre na minha mente, mas nunca conseguirás com exatidão decifrar os meus pensamentos. E o similar sucede comigo em relação aos outros.

Posso te falar das chegadas e das partidas e tentarás entender do significado delas em mim, porém, sentirás a alegria e a tristeza no teu próprio compasso no espaço que é só teu. Im­possível sentires o que eu senti. É intocável a região do a sós.

Afinal, essa individualidade é a grande diferença. E as diferenças é que nos fazem elos da grande corrente da vida. Únicos, imprescindíveis, cada um com a sua participação, a sós.

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