O bêbado e o pregador

Rubens Amador. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Em um domingo desses, num logradouro público em tarde bonita de sol, assisti – de passagem – a um inflamado pregador religioso, secundado na sua prédica por um círculo de crentes ou meros curiosos. Havia dois ou três violões tocando músicas sacras que alguns acompanhavam cantando hinos. Em determinado momento pude ver juntar-se àquelas pessoas, saindo de um barzinho próximo, um “gambá de tanque cheio”. O pobre homem mal conseguia manter-se de pé. Todo seu corpo de agitava, principalmente a cabeça. Foi nesse momento que imaginei uma história insólita entre o pregador e o bêbado. Ei-la:

De súbito, fazendo-se ouvir mais alto que o orador sacro, o bêbado gritou de onde estava, arrastando a língua:

– “Quero falar… com o pre…gador !”

Muitos voltaram-se para o pobre pinguço, enquanto outros deliberadamente o ignoravam. Incontinenti, dois membros da seita, um ainda de violão a tiracolo, aproximaram-se do etílico perturbador, com ele confabulando baixinho. – “Sem essa! Coor-de-na-dor não serve. Eu quero falar é com o pregador!”.

– “Irmão, o pregador está pregando. Não pode ser interrompido”.

Foi pior. O indivíduo alcoolizado então berrou, apertando os olhos:

“Eu quero falar com o pregador!”

Foi aí que uma senhora, membro destacada da seita (trazia uma faixa vermelha cruzada sobre o peito), intermediou o problema.

– “Irmão você quer falar com o pregador, pois vai falar com ele”.

– “Obrigado, dona”, articulou o inconveniente, apoiando-se sobre o ombro da senhora, quase caindo os dois no chão.

A referida senhora foi até o pastor no centro do círculo de ouvintes e falou-lhe ao ouvido, enquanto os demais estavam revoltados com aquele “reles perturbador”, como dissera um dos assistentes, bíblia na mão, demonstrando assim pouco amor cristão ante aquele inusitado incidente, afinal envolvendo um irmão! Ouvida a senhora, o pregador abriu os braços como a pedir tempo aos circunstantes – como no basquete – e ainda de braços erguidos voltou-se para o “gambá”, dizendo-lhe com voz empostada:

– “Vem, irmão, aproxima-te e fala!”.

Trazido pela senhora e o rapaz do violão, o “bebum” veio vindo, balançando e puxando as calças mal presas em sua cintura. Foi então que frente a frente com o religioso, perguntou-lhe enfaticamente, apertando os olhos:

– “O senhor é que é o pregador?”.

– “Sim, que quereis, filho?”.

O “gambá” botou os lábios para a frente, como se fosse assoviar, apertou bem os olhos e articulou:

“Então me arranja “uns” preguinho, aí”!

“Herege! Chamem a polícia”, gritou uma mulher magrinha, bolsa ameaçadora no ar.

Aos poucos, a reunião pública e de pregação religiosa foi-se desfazendo. Era impossível continuar. Esse entendimento era inclusive da parte do próprio pastor. Afinal, ele era humano antes de mais nada.

Por Rubens Amador