Muito além da CNH: o papel do instrutor na formação de motoristas conscientes

Albeneir Obelar Caetano tem 35 anos e atua como instrutor de trânsito há treze. (Foto: Divulgação)

Quando um aluno entra pela primeira vez em um carro de autoescola, o objetivo pode parecer simples: conquistar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). No entanto, para quem dedica a vida à formação de condutores, essa missão vai muito além da aprovação no exame prático. É o início da construção de um comportamento que pode salvar vidas.

Há 13 anos atuando como instrutor de trânsito, Albeneir Obelar Caetano, de 35 anos, afirma que escolheu a profissão por unir duas grandes paixões: o ensino e o universo automotivo. Desde então, acompanha diariamente a transformação de pessoas inseguras em motoristas preparados para enfrentar o trânsito.

“O instrutor de trânsito é, literalmente, o alicerce da formação do condutor. Nós vamos muito além de ensinar a manusear um veículo ou decorar regras para passar na prova. Formamos comportamento e atitudes”, destaca.

Segundo Caetano, a responsabilidade do instrutor é desenvolver valores essenciais para a convivência no trânsito: “Ensinamos respeito ao próximo, atenção, paciência e responsabilidade. O aluno precisa compreender que dirigir envolve riscos e exige cuidado constante, tanto com sua própria segurança quanto com a dos pedestres, ciclistas e demais condutores”.

Formação em constante evolução

O processo de formação de condutores passou por mudanças importantes nos últimos anos. Entre elas, Caetano destaca a possibilidade de realização do curso teórico na modalidade de Ensino a Distância (EAD), a prova teórica eletrônica, a CNH Digital e o monitoramento das aulas práticas. Na avaliação do instrutor, essas ferramentas trouxeram mais acessibilidade e segurança ao processo de aprendizagem. “A tecnologia veio para agregar. Ela facilita o acesso ao processo de habilitação e contribui para uma formação mais segura, priorizando a consciência do futuro motorista e não apenas a habilidade de dirigir”, pontua.

Ao longo de mais de uma década formando motoristas, Caetano observa que muitos erros se repetem entre os candidatos à habilitação. Entre eles estão a interpretação equivocada da placa de parada obrigatória, o posicionamento incorreto nas conversões e o hábito de não utilizar corretamente a seta de sinalização. Para ele, porém, existe um erro ainda mais preocupante: “O pior erro é achar que já sabe tudo. Alguns alunos criam essa falsa sensação de domínio logo nas primeiras aulas e deixam de prestar atenção nas orientações. Todos nós estamos em constante aprendizado. Essa disposição para aprender é o que nos torna condutores melhores.”

Histórias que ficam

Em 13 anos de profissão, muitas histórias marcaram a trajetória do instrutor. Uma delas envolve uma aluna que havia sofrido um grave acidente de trânsito ainda na adolescência, desenvolvendo um profundo trauma em relação à direção. Anos depois, já mãe de uma criança com necessidades especiais e morando distante da cidade, ela percebeu que precisava superar o medo para conquistar autonomia.

“Meu papel foi ensinar a técnica, mas também oferecer segurança, paciência e apoio emocional. Costumo dizer que, em alguns momentos, o instrutor acaba sendo um pouco psicólogo também. Ver aquela aluna vencer o medo e conquistar sua independência foi uma das maiores recompensas da minha carreira”, conta.

Embora reconheça avanços tecnológicos no processo de habilitação, Caetano demonstra preocupação com algumas alterações recentes na formação de condutores. Ele cita, principalmente, a redução da carga horária mínima das aulas práticas e o fim da obrigatoriedade de uma carga mínima para o curso teórico. “Sou favorável às mudanças quando elas representam avanços. Mas reduzir o tempo de formação é um retrocesso. Sem uma base teórica sólida não existe prática segura. Isso já começa a aparecer no dia a dia, com alunos chegando mais despreparados.” Para o instrutor, dirigir é uma habilidade que exige aprendizado contínuo e responsabilidade permanente.

Uma missão que salva vidas

Mais do que ensinar técnicas de direção, Caetano acredita que sua profissão contribui diretamente para a construção de um trânsito mais humano e seguro: “É uma satisfação enorme fazer parte dessa etapa tão importante da vida das pessoas. Acompanhar a evolução de cada aluno, desde a insegurança até a conquista da confiança para dirigir sozinho, é o que dá sentido ao meu trabalho”.

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