Velho Oeste Moderno

Foto: Reprodução/Internet

Antônio Maiquel Nunes
*Formado em Comunicação e Publicidade pela Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT)

Cenários do Velho Oeste e suas peculiaridades têm fascinado minha curiosidade e interesse desde a infância. Não à toa eram minhas primeiras e mais visitadas seções nos corredores das praticamente extintas videolocadoras, em algum ponto entre minha infância e adolescência. Já nos dias atuais, o contexto histórico de onde o termo se origina me chama mais atenção.

Uma busca rápida no Google revela que os termos têm sua raiz no inglês “wild west”, “far west”, ou “old west”. Embora todos os três termos definam bem o tempo a que eles se referem, o primeiro é mais apropriado para minha analogia aqui. “Wild west”, em tradução livre, seria “oeste selvagem”. O entendimento popular do que o termo significa, no entanto, dispensa qualquer auxílio do Google tradutor ou referências da Wikipédia.

Trata-se de um período entre os meados do século XIX e início dos anos 1900 que se deu na parte oeste dos Estados Unidos. A imagem fotográfica de quem ouve o termo hoje em dia inevitavelmente produz a figura de um homem usando um chapéu velho, montado em um cavalo, com uma pistola de cano longo na cintura, na bota, e com frequência apontado na direção de um desafeto qualquer.

O “xerife”, com uma estrelinha reluzente do lado esquerdo do peito e ar de “quem manda aqui sou eu” é também personagem obrigatório dos contos do velho oeste. Ironicamente, mas sem qualquer contradição, parece que quem manda mesmo era ele. Isso porque outra notável e talvez principal característica do oeste selvagem, é ser conhecido como “terra sem lei”. Bulling (ou seja lá como chamavam) era resolvido na bala. O fórum de pequenas causas era normalmente em uma estrada empoeirada em frente ao “saloon”, e a audiência de conciliação era chamada pelos populares de “duelo”.

Desavenças de condôminos ou outras disputas de honra, normalmente envolviam pouca conversa e uma certa quantidade de pólvora. A descrição, embora com alguns elementos de Hollywood, descreve em grande parte a época e território hostil muito bem batizada de “oeste selvagem”. Para quase qualquer cidadão civilizado hoje em dia, viver nessa época parece inconcebível. A lei, pelo menos como a conhecemos hoje, parecia não proteger ninguém. Vendo um vídeo e sua repercussão outro dia, minha mente se voltou para o velho oeste, e me perguntei o quão longe estamos do “oeste selvagem” em 2019.

No vídeo, um denominado “artista” (que de propósito não cito o nome aqui), aparece dentro de um ônibus com turistas na Flórida, aparentemente de férias na Disney. O vídeo era gravado pelo próprio rapaz, que em clima alegre, descontraído, vira a câmera do celular para o fundo do ônibus, e foca em uma menina de mais ou menos de 10 anos de idade, que ao perceber que a atenção era voltada a ela, suspira em um gesto de visível de desconforto, vergonha, e até tristeza. Apontando a câmera para a menina, entre risos e deboches, o rapaz diz algo do tipo “Gente…… olha isso……”.

O motivo para tanto “Gente……olha isso……”, é porque a adorável criança parecia usar uma espécie de peruca, e parece não ter sobrancelhas. Pra piorar, o “artista”, posta o vídeo em suas redes sociais, achando tudo muito divertido. A repercussão nas redes sociais é imediata, e a compaixão pela criança por parte de todos os internautas é comovente. Canais de televisão e outros meios de comunicação foram rápidos em reportar o episódio e acertadamente repudiar a atitude. Não consegui evitar pensar duas coisas. A primeira é, qual seria o desfecho desse episódio há 150 anos no Velho Oeste.

Dedos em teclado de smartphone certamente estariam no gatilho de uma 22. A jurisprudência da época já mostrou como o caso é encerrado. A segunda coisa que não consigo deixar de pensar é na lei (ou falta dela) que protege casos assim. A lei brasileira, a exemplo da lei americana, é clara e objetiva no que diz respeito à liberdade de expressão, e declara que é livre a manifestação e difusão de ideias, pensamentos, e até críticas, entre outras concessões. Trata-se de uma lei que faz parte da essência de nossa democracia, um direito que todo cidadão deve sempre prezar. Todavia, me parece que de forma real e literal todos vivemos em um “wild west” moderno.

Internet é ainda uma terra sem lei. Regulamentações são fracas ou com aplicação pouco prática. Parece que ninguém está protegido de verdade, nem mesmo uma garotinha de 10 anos tentando disfarçar as terríveis consequências de uma doença que lhe rouba a infância. As armas de cano curto da atualidade, smartphones, câmeras, computadores, internet e afins, apesar de nos fazerem tanto bem, não deixam de ser menos perigosas que as pistolas e rifles do velho oeste, se usados para ferir o outro.

Me parece que os tempos mudam, as armas mudam, os cenários mudam, mas o homem continua o mesmo do Velho Oeste. Onde isso vai parar, e quantos ainda vai ferir? Nem o Google sabe, nem a Wikipédia. Tomara que os buscadores tenham histórias melhores para contar sobre nós no futuro.

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