Paradise

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Durante muitos anos veraneamos em Bombinhas. Toda família ia junto e lá ficávamos 30 dias. Dentre todas as coisas agradáveis que fazíamos, havia uma que se destacava: admirar os barcos a vela que singravam de um lado para o outro da baía. A elegância e a agilidade das embarcações nos enchiam de desejo. Ah, como seria bom ter um barco e, com ele, cortar as águas em completa liberdade, seria o paraíso. Nossos desejos foram ouvidos e atendidos, ganhamos de presente um Dingue.

Dingue é um pequeno veleiro monotipo, exige a presença de dois velejadores (um timoneiro e um proeiro), um excelente barco para diversão e prazer em águas abrigadas, podendo levar de uma a quatro pessoas, sendo bastante simples e bem estável.

Imediatamente, foi batizado de Paradise, é claro. Próxima etapa: aprender a montar e velejar. Se prontificou um aluno meu, versado no assunto, para servir de meu professor.

Começamos com os termos náuticos. Conheci, então, a retranca, a bolina, o mastro e o leme, assim como bombordo, estibordo, cambar, aproar, arribar, e muitos outros. Aos sábados, prática de navegação na lagoa dos Patos. Depois de não muitas aulas, meu professor me deu por apto para velejar sozinho. Não me fiz de rogado e juntei a mulher e o casal de filhos pré-adolescentes para a viagem inaugural. Todos munidos de coletes salva vidas, iniciamos a velejada. Minha mulher, muito tensa, pois mal sabe nadar. Os filhos relaxados, e como é comum nessa idade, começaram de tira e puxa enticando um com o outro. Resultado: o menor se desequilibra e cai na água.

– Volta, volta ligeiro pra pegar o guri, diz minha mulher angustiada.

Mais fácil dizer do que fazer. Fiz a cambada (manobra para mudar de rumo) como aprendera e apontei o bico para o guri. Chegando perto aos gritos de “para o barco”, me dei conta que não aprendera a frear a embarcação, e sigo. Tento agarrá-lo pelo colete, mas ele me escapa. Nova cambada e nova tentativa, desta vez praticamente o atropelo,

– Cuidado, vais matar o guri!

Depois de muitas cambadas e tentativas frustradas de resgatar o náufrago, começo a me desesperar e acabo virando o barco. Todo mundo na água. Vou resgatar minha mulher, que pouco nada, puxando-a de debaixo da vela.

– E agora, o que vai ser? Viu o que tu fez? Nós aqui no meio da lagoa!

– Calma, mulher! Só coloca os pés no chão que aqui dá pé!

E vamos caminhando pela rasa lagoa resgatar o náufrago.

Consultando meu professor, descubro que a tarefa de frear o barco era muito mais simples do que eu imaginava. Bastava soltar a vela e deixa-la drapejar ao vento… Continua…

Ciro J. Mombach

Médico