*Por Rubens Amador
No programa que substituiu Jô Soares na Globo, Pedro Bial entrevistou o ator, compositor e cantor Moacyr Franco. Um vencedor dentro da sua arte. Contou como começou. Depois de ser engraxate, ajudante de pedreiro, idem de mecânico e pintor, certo dia, um amigo seu, para ajudá-lo, convidou-o para ser figurante em certa novela em uma das primeiras televisões que não a Globo.
Lá, acabou sendo figurante por diversas vezes, até que um dia, de brinquedo, entre a presença do amigo que o convidara, e outros, num intervalo, fantasiou-se de mendigo e criou espontaneamente o bordão: “Me dá um dinheiro aí…”. Eram os anos 60. Estava tão engraçado e desembaraçado durante a brincadeira que seu amigo achou que ele tinha algum talento para representar e levou o seu bordão para compositores de marchinhas daquela época, que fizeram a conhecida música “Me dá um dinheiro aí…”. Rapidamente, se tornou um sucesso inesperado, cantado por ele mesmo, Moacyr Franco.
Naquele ano, foi a música de Carnaval mais tocada e deixou Moacyr muito conhecido nacionalmente, pois todo Brasil cantou o “Me dá um dinheiro aí…”, música que até hoje uma grande maioria de pessoas sabe cantar. Posteriormente, Franco descobriu que era capaz de fazer músicas com letras suas. E acabou tendo vários sucessos neste campo.
Mas este ameno artigo de hoje tem o propósito de contar-lhes um momento narrado por ele na entrevista, que aconteceu durante a sua carreira e que ele achou muito interessante. Tinha um trio de jovens cantores seus amigos, com quem Moacyr, certo dia, a mando do diretor, fez com que fosse o cantor principal desse trio muito bom que se apresentava. Tornaram-se muito amigos. Este trio, que teve vida artística efêmera por sua elevada qualidade, foi ouvido por certo cidadão suíço, do mundo artístico, que os contratou por um ano para que atuassem em uma famosa boate na Suíça. Para lá foram os três cantores. Meses depois, de lá se apresentarem, em uma noite frigidíssima de três graus abaixo de zero.
Segundo contaram ao Moacyr, na boate, no fim daquela noite, ficou sentado só um velho senhor, acompanhado de seu neto, e que, depois de cantarem “Aquarela do Brasil”, o aludido senhor chamou o garçom e pediu para que os cantores novamente cantassem “Aquarela”. Os artistas atenderam ao velho e evidente importante cliente. Terminada a música, outra vez aquele velho homem pediu que cantassem mais uma vez a mesma música. Eram três da manhã, e os cantores estavam bocejando de sono e só aquele cliente – o último – os estava aborrecendo ao pedir que repetissem a mesma música. Pois aquele velho pediu que tocassem quatro vezes “Aquarela do Brasil”.
Após, levantou-se para retirar-se, seu neto vestiu-lhe um finíssimo casacão e saíram. O velho senhor amparado pelo neto. Assim que sumiram na porta, um componente do trio perguntou ao gerente da boate: “Quem é este velho maldito que fez a gente tocar por quatro vezes a Aquarela?”. O gerente apenas disse-lhe: “Aquele é monsieur Charles Chaplin!”. Os três correram atrás da dupla que acabara de sair e, mesmo com os corpos aquecidos, num clima de três graus abaixo de zero, procuraram pelo velho Chaplin, que em um carro já se distanciara na neve intensa que caía naquela noite fria de Vevey, cidade suíça onde morava.




