Inteligência Artificial e Vieses Sistemáticos: O impacto na formação da opinião e na polarização eleitoral

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Vilson Farias e Thalita Fernandes

A influência da inteligência artificial (IA) sobre o comportamento político e eleitoral se tornou uma das questões mais delicadas da contemporaneidade. Se antes a manipulação da opinião pública estava restrita a meios de comunicação tradicionais, hoje ela se dissemina de maneira sutil e massiva por meio de algoritmos e sistemas automatizados. Esses sistemas aprendem com o comportamento humano e o reproduzem em escala ampliada, configurando um poder invisível.

De acordo com Arthur Alves Xavier (2025), embora a IA não tenha capacidade legal para votar, sua interferência na formação de preferencias politicas é crescente. Isso se dá, sobretudo, pela mediação de plataformas digitais e chatbots, como Grok, da rede social X (antigo Twitter), que já foram utilizados para indicar supostos “melhores candidatos” com base em dados enviesados.

O fenômeno é preocupante não apenas pela influência direta sobre os eleitores, mas também pela falsa sensação de neutralidade que a tecnologia transmite. Segundo o Jornal da USP (2023), ferramentas como o ChatGPT e o próprio Grok podem reproduzir vieses ideológicos presentes em suas bases de dados. Ao fazer isso, elas consolidam uma narrativa parcial e moldam percepções politicas sem que o usuário perceba a manipulação.

A consequência é um ambiente de debate público cada vez mais vulnerável à desinformação e à polarização. Esse cenário é alimentado por respostas personalizadas e aparentemente racionais, mas que muitas vezes carecem de fundamentação fática e imparcialidade.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) buscou responder a essa ameaça em 2024, ao aprovar uma resolução que proíbe o uso de IA para a criação e propagação de conteúdos falsos durante as campanhas eleitorais. A medida inclui a limitação do uso de robôs que simulam interação com eleitores, com o objetivo de proteger a integridade do processo democrático.

Entretanto, como destaca Xavier (2025), a regulação ainda é insuficiente diante do avanço acelerado da tecnologia e da criatividade dos agentes políticos e econômicos que a utilizam para fins estratégicos. A velocidade com que os conteúdos gerados por IA se espalham nas redes sociais torna quase impossível o controle e a verificação imediata de sua veracidade, permitindo que a desinformação se consolide antes que possa ser desmentida.

Casos como o do Grok, que em 2023 chegou a “declarar voto” em um candidato especifico, evidenciam a fragilidade ética das inteligências artificiais e a urgência de se estabelecerem normas mais rígidas (Gazeta do Povo,2023). A fronteira entre tecnologia e manipulação se torna cada vez mais tênue, colocando em xeque o próprio conceito de autodeterminação política. Se as máquinas são capazes de influenciar decisões humanas a partir de padrões de consumo, preferencias e interações digitais, é inevitável questionar até que ponto o voto permanece uma expressão autônoma da vontade individual.

A democracia contemporânea enfrenta, portanto, um novo tipo de ameaça menos visível, mas profundamente eficaz. O perigo não está apenas na desinformação explícita, mas na capacidade da IA de moldar o imaginário político de forma silenciosa, reproduzindo crenças, enviesando o discurso e enfraquecendo a pluralidade. Mais do que proibir usos específicos, o desafio central reside em educar o eleitor digitalmente, tornando-o consciente de que nem toda informação gerada por uma máquina é neutra ou confiável. A questão primordial, como afirma Xavier (2025), não é se a inteligência artificial pode votar, mas até que ponto ela já está votando por nós, influenciando nossas escolhas antes mesmo que percebamos.