É possível aprender a morrer?

Cristina Maria Rosa. Pedagoga, doutora em Educação, escritora e patronesse da 49ª Feira do Livro de Pelotas. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Profundamente inserida na tradição cultural do ocidente e ainda bastante protegida das novas formulações acerca do que é “cultura”, a Literatura como arte da palavra se mantém como consenso.

Em A literatura contra o efêmero, Umberto Eco escreveu: “A literatura mantém a língua em exercício e, sobretudo, a mantém como patrimônio coletivo. A língua, por definição, vai para onde ela quer, nenhum decreto superior, nem político e nem acadêmico, pode interromper seu caminho nem desviá-lo para situações que se pretendem ótimas. A língua vai para onde quer, mas é sensível às sugestões da literatura”.

Se “o mundo da literatura” pode ser “inspirador da fé na existência de certas proposições que não podem ser postas em dúvida” ou um “modelo de verdade, ainda que imaginário”, a defesa da literatura e de um grupo de obras – o cânone literário – é objeto caro e discutível.

Entre clássicos sobre o cânone, ou seja, textos que apresentam e defendem o grupo de obras imprescindíveis, inadiáveis, inimitáveis, inspiradoras, essenciais ou o melhor do que produzimos em anos de letras no papel, destaco sobre algumas funções da literatura, de Umberto Eco; Contos e Poemas para crianças extremamente inteligentes, de Harold Bloom; Por que ler os clássicos, de Italo Calvino; e A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov; para quem Literatura não é teoria, é paixão. Nos textos aqui citados, quatro reconhecidos pesquisadores que impactaram com suas ideias e registros o conturbado e interessante século 20, indicam o que ler para aprender a morrer.

Umberto Eco ri de nossos limites. Nossos, da humanidade. Ele reconhece que nos perturbamos quando da leitura dos clássicos não pelo fato de serem capazes de identificar de uma forma essencial algo que é verdadeiro e terrível. Nos perturbamos por reconhecermos que a modernidade dos clássicos é devida ao fato de eles serem tragicamente obsoletos.

Tragicamente obsoletos!

Que expressão impactante e potente!

Para nosso consolo, se é que morrer pode ser consolável, Umberto Eco elogia a capacidade que a literatura tem de nos contrariar. Como? Ao afirmar a impossibilidade de mudar destinos. E argumenta pela necessidade de criatividade e liberdade que ela nos oferece ao nos ensinar a morrer.

Por Cristina Maria Rosa

Pedagoga, doutora em Educação, escritora e patronesse da 49ª Feira do Livro de Pelotas

1 comentário

  1. Excelente texto para nossa reflexão, esse da Professora Cristina Rosa! O Jornal Tradição está cada vez melhor!

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