Por Ciro J. Mombach
Médico
Após aparar a sebe com o tesourão de poda no sábado, amanheci com uma estranha dor no peito. Como engenheiro, aos 44 anos, achei que fosse uma dor muscular. Doía ao movimentar os braços e o tronco.
Na segunda-feira, a dor incomodava em qualquer movimento. Na terça, doía até para respirar fundo; foi quando pensei que poderia ser algo mais sério. Quanto mais refletia, mais angustiado ficava, acreditando que podia ser um infarto. Marquei consulta com o primeiro cardiologista bem avaliado no Google.
Na sala de espera, um enorme quadro de Dom Quixote e Sancho Pança chamava a atenção: ele montado em Rocinante, investindo com a lança contra os moinhos. Pensei: será que estou a ver moinhos de vento?
Sentei numa confortável cadeira Wassily, mas logo me levantei, tomado pela ansiedade que aumentava minha dor. A secretária, atenciosa e receptiva, tentou me acalmar:
— Calma, seu Sérgio, a outra consulta já está terminando e logo o doutor o atende.
Ainda assim, levantei e sentei umas cinco vezes nos cinco minutos de espera.
O doutor, um senhor grisalho, pareceu-me a escolha certa: nem jovem demais para ser inexperiente, nem velho demais para estar desatualizado.
— Boa tarde, seu Sérgio, sente-se. O que o trouxe até aqui?
— Estou com muita dor no peito, doutor. Acho que estou infartando.
Ele iniciou um meticuloso interrogatório sobre a dor: quando começou, o que eu havia feito no dia anterior, o que a piorava, como evoluiu. Vasculhou toda a minha vida pregressa de hábitos e doenças e só então me levou para a sala de exames. Mediu minha pressão, palpou minhas pernas (não sei bem por quê) e auscultou demoradamente, com expressão preocupada, o meu coração.
Em seguida, apertou com dedos firmes minhas costelas e o esterno até encontrar um ponto que produziu uma dor lancinante, impossível de não arrancar um “aiii” estridente. Vi seu semblante relaxar e pensei: ou esse doutor é sádico, ou descobriu meu problema.
Depois, me encheu de fios e fez o eletrocardiograma. Voltamos à sala anterior.
— Boas notícias, seu Sérgio — disse com um meio sorriso. — Nada de errado com seu coração. O senhor tem uma condrocostite.
— Em português, doutor, o que é isso?
— Uma inflamação na junção das costelas com o osso do peito, às vezes relacionada a esforço repetitivo, como a poda da sebe.
— Ahn… quer dizer que não vou morrer disso?
— Não. Isso é chato, mas não é grave. Incomoda, mas não mata. Vou receitar uma injeção e alguns comprimidos, e amanhã mesmo o senhor já se sentirá melhor.
Agradeci e saí confiante, lançando um olhar de esguelha para o quadro de Dom Quixote. Pensei: melhor esclarecer que os moinhos são apenas moinhos, e não inimigos ou doenças imaginadas.



