Fora da realidade

Os dados sobre a Covid-19 em Pelotas refletem o quanto as ações de flexibilização parecem estar fora da realidade local. Se alguém admitir que o município está entrando em estabilidade ou redução do número de casos, cabe perguntar: quando a situação foi caótica então?
Nos primeiros 12 dias do mês de maio tivemos 55 mortes e 1.341 novos casos. Foram quase 5 mortes e 112 novos casos por dia. É nesse cenário que pais e mães irão entregar seus filhos para professores nas escolas.
Os decretos, estadual e municipal, determinaram o retorno das atividades presenciais nas escolas. Com isso, a volta às aulas intensificará os contatos presenciais entre três grupos que não receberam vacinas, são eles: alunos, professores e familiares, de alunos e de professores.
O retorno das atividades, que ocasiona o ir e vir de pessoas na cidade, provoca a sensação de normalidade. Contudo, faz-se necessário o alerta para a atual situação: se por um lado a vacina trouxe bons resultados para idosos diminuindo as internações e os óbitos, por outro aumentou o número de casos e óbitos entre os mais jovens. Assim, não há como negar que o retorno das aulas sem a vacina eleva o grau de exposição para a contaminação. Os números de óbitos e novos casos entre os mais jovens, por si, justificam as atitudes de pais que não estão permitindo que os filhos retornem às aulas presenciais.

Já parou pra pensar?

Estamos vivendo um tempo de deslegitimação da política, de desconstituição das instituições, de desdemocratização, de desconstrução do coletivo.
Estamos vivendo um período em que votamos, porém não nos sentimos representados pelos eleitos. Tornou-se comum falar que “políticos não prestam”, que “a política não presta”, que é “algo ruim”.
Aceitamos a desconstituição das instituições e os sindicatos que representam categorias de trabalhadores “não prestam mais, se tornaram redutos partidários”.
As universidades públicas são proclamadas como locais de desordeiros e vagabundos. Entretanto, a maioria dos brasileiros acometidos da Covid-19 no país é atendida pelo SUS, nas UBSs, UPAs e nos hospitais das universidades públicas ou, então, por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais formados na universidade pública. São tão desordeiros ou vagabundos assim?
Escolas públicas são vistas como instituições que perderam qualidade no ensino. Empresas públicas não prestam bons serviços. O estado não é bom gestor. Estão criando essa cultura de que tudo que é público, é ruim.
A imprensa é tratada como um corpo único, como se todos os profissionais de comunicação fossem iguais e estivessem a serviço da mentira, da notícia manipulada. Em síntese, a imprensa não presta.
A justiça não funciona ou funciona somente para os interesses de poucos – esse pensamento deslegitima o Judiciário e até mesmo a Constituição Federal e busca tornar legítimo e democrático o ato de pessoas pedindo o fechamento do STF.
Estamos vendo a deslegitimação dos partidos políticos com políticos ocupando cargos Executivos e Legislativos sem partido. Partidos permitindo a permanência de criminosos nos seus quadros. Então as pessoas perguntam: para quê servem os partidos políticos? Assim, o partido deixa de ser uma instituição com projeto de construção da cidadania coletiva, de cultura política, econômica e social, que atenda a maioria da população e passa a ser apenas o meio legal e necessário para que o político alcance um cargo público com mandato.
Assistimos pessoas desconstruindo todas as conquistas das mulheres, pregando que elas voltem à condição exclusiva de pessoa do lar. Com a população negra, como ninguém em sã consciência pode desejar um retrocesso, que seria voltar à escravidão, alguns constroem a ideia de que no Brasil não há racismo – mas quem justifica a quantidade de mortes de jovens negros nas grandes cidades do país e tantos outros índices assustadores?

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