Pinheirense lança livro sobre racismo ambiental e injustiça socioambiental

O estudo destaca que as desigualdades sociais, construídas historicamente a partir da colonização. (Foto: Freepik)

A jurista e pesquisadora Lizia Galarce lançou, no domingo (21), o livro Para Além da Enchente: Racismo Ambiental. O evento ocorreu no Teatro Municipal Lodovico Pórzio e reuniu convidados, familiares e amigos da autora. A obra é resultado de uma pesquisa científica desenvolvida durante a pós-graduação em Inovação Jurisdicional e propõe uma reflexão sobre os impactos desiguais das crises ambientais na sociedade brasileira.

Pós-graduada em Inovação Jurisdicional: Transformações Conceituais e Tecnológicas no Poder Judiciário, Lizia atua como assessora de juiz de Direito no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Também possui especialização em Ciências Criminais e experiência na advocacia criminal e na magistratura leiga. Atualmente, dedica-se aos estudos jurídicos e à pesquisa acadêmica.

Segundo a autora, o livro nasceu da pesquisa desenvolvida para a pós-graduação. “Queria escrever sobre o racismo e, em uma conversa com o juiz de Direito Dr. Fellipe Lima, surgiu o tema: racismo ambiental. A partir daí, uma pesquisa intensa foi realizada entre os anos de 2024 e 2025. A obra apresenta uma realidade desconfortável e ainda pouco refletida pela sociedade: a inegável crise ambiental não atinge todas as pessoas da mesma forma”, explica.

O estudo destaca que as desigualdades sociais, construídas historicamente a partir da colonização, da escravidão e da exclusão de grupos vulneráveis, tornam comunidades negras, indígenas e quilombolas mais suscetíveis aos impactos das mudanças climáticas e das tragédias ambientais.

Estudo evidencia dores centenárias

Ao falar sobre o processo de escrita, Lizia relatou que a experiência foi marcada pela emoção e pela reflexão. “A nossa história machuca, e constatar que a escravidão vivida há séculos ainda hoje contribui para a maior vulnerabilidade de pessoas negras, indígenas e quilombolas é algo que assusta e exige reflexão”, expõe.

Segundo ela, essa constatação reforçou sua responsabilidade não apenas como acadêmica, mas também como cidadã comprometida com a promoção da justiça social. “Por isso, quando surgiu a oportunidade de transformar a pesquisa acadêmica em livro, levando o debate para além dos muros das universidades por meio de uma linguagem clara e acessível, senti que poderia contribuir para aproximar o conhecimento das pessoas e, sobretudo, reafirmar a dignidade daqueles que, por tanto tempo, tiveram suas vozes silenciadas”, afirma.

Ao comentar o lançamento da obra, a autora classificou o momento como um dos mais marcantes de sua trajetória. “Um verdadeiro filme passou pela minha cabeça, desde a matrícula no curso, passando pelos momentos em que pensei em desistir (e ainda bem que não desisti). Hoje, ao olhar para trás e perceber que, entre 29 alunos, apenas dois livros foram publicados, e que o tema da minha obra está entre os poucos existentes no Brasil, sinto até um certo frio na barriga diante da responsabilidade de transmitir esse conhecimento”, salienta.

Ela também destacou a receptividade do público presente ao evento. Para ela, ver o espaço repleto de familiares, amigos e tantas pessoas interessadas no assunto renovou sua esperança de que debates sobre problemas que afetam profundamente a nossa sociedade, como o racismo, encontrem cada vez mais espaço e atenção. “Mais do que discutir essas questões, é essencial buscar soluções concretas para enfrentá-las. A felicidade que vivi no dia do lançamento ficará para sempre gravada na história deste livro e em tudo o que ele representa para mim”, pontua.

Ao encerrar sua fala durante o lançamento, Lizia reforçou uma das principais reflexões apresentadas na obra: “Embora a chuva caia sobre todos, o peso da lama escolhe endereço, e esse endereço tem cor, tem classe e tem história. Essas pessoas não estão ali porque escolheram o risco. Elas estão ali porque gerações de desigualdade, de racismo estrutural, de exclusão do acesso à terra urbanizada e de insuficiência de políticas públicas limitaram suas possibilidades. A vulnerabilidade foi construída ao longo da história no país”.

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