A perda do afeto e da política

Corria a década de 80. Depois de um início difícil na administração de Pelotas, em 1983, sob o comando do prefeito Bernardo de Souza, quando ficamos com os salários atrasados por sete meses, as águas se acalmaram. No ano seguinte, apareceu a chance de fazer um curso de Marketing Político, em São Paulo, com o jornalista e escritor Gaudêncio Torquato do Rego. Oportunidade imperdível para quem fazia política com inocência e precisava de instrumental teórico para clarear os rumos do que poderia ser um sonho, mas também se transformar num pesadelo…

De mala e cuia, junto com o estudante de jornalismo Eduardo Mielke, seguimos para a formação de uma semana, com aulas noturnas. O dia era reservado para explorar a cidade. Nesta ocasião, graças ao fato do Eduardo ter uma tia trabalhando no arcebispado de São Paulo, tomamos um café da tarde e encontramos dom Paulo Evaristo Arns, uma das principais figuras da Igreja Católica de então e destaque na defesa dos direitos humanos, que apareceu e não se negou em conversar.

O tempo era de muita agitação. Vivia-se o fim da ditadura militar. Governadores eram nomeados, assim como prefeitos das capitais. Naquele ano, o estado de São Paulo estava com o MDB (oposição de então) e indicaria o administrador da capital. A disputa foi entre Orestes Quércia e Mário Covas. Nas ruas, havia uma grande rivalidade eleitoral. Visitamos o comitê que atraia nossa atenção pelas propostas mais ousadas: Mário Covas, na esperança de também encontrá-lo.

Isto não aconteceu. Conversamos com os organizadores da campanha e saímos com farto material. Não viramos “paulistuchos”, porém, durante longo tempo, tínhamos prospectos e adesivos em pastas e malas. O que se aprendia com aulas e palestras à noite foi reforçado, na prática, pelo testemunho de profissionais que sentiam a preocupação de entender quais os acertos e erros de quem, nas eleições de 82, trabalhou mais por sensibilidade do que por estratégias de marketing.

Mario foi referência como político de centro-esquerda – deputado federal, senador, governador e candidato à presidência. Diagnosticado com câncer, começou a aparecer com Bruno Covas, que morou com o avô e passou a frequentar a cena pública. Recentemente, os meios de comunicação destacaram a presença de Tomás, filho de Bruno, então prefeito de São Paulo, que esteve junto nas ruas, palanques e quartos de internação, quando seu pai se despedia, também vítima de câncer.

A cumplicidade se consolidou por laços de família, como quando Bruno sofreu para acompanhar o filho numa final de futebol. Cansado, fragilizado pelas medicações, sabia que o fim se aproximava, mas queria ser o companheiro e amigo que encontrou no avô e ter a mesma afinidade com o filho. Uma perda que deixa legado no mundo das ideias e de comportamentos. Não é apenas questão de discutir matizes ideológicas ou demonizar a política e a democracia. De geração em geração, aprenderam que a vida passa por estas instâncias e, sem elas, tudo se torna bem mais difícil.

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