A cidadania passa pelos bancos escolares

Manoel Jesus, educador.

Quando meus pais estudavam, lá pelos idos de 1930, nos grotões de Canguçu, as escolinhas formavam até a 4ª série primária. Poucos alunos. Contavam que todos ficavam na mesma sala com as professoras se desdobrando para que conteúdos diferenciados fossem compreendidos. O foco do ensino era nas operações matemáticas, especialmente a tabuada, e a leitura. Sempre fiquei surpreso quando, já estava pela 6ª série, 11 para 12 anos, e o meu pai tomava os múltiplos, divisores, soma e subtração sem sequer olhar para um caderno, ou os lápis que também tinham esta informação.

Quando se traz estas lembranças, “especialistas” torcem o nariz e dizem: “aí vem os saudosistas”. E acrescentam: “novos tempos pedem novas estratégias”. O problema é que foram feitas muitas experiências e praticamente todas elas deram com os burros na água. Tomo o exemplo que citei: pais com pouco estudo faziam o que fosse necessário para que os filhos concluíssem o primeiro e o segundo grau. Privavam-se até mesmo do elementar para si, mas intuíam que estudar era a melhor forma de conseguir a mobilidade social. Acreditavam que valia a pena o sacrifício. E hoje?

Uma grande parte dos pais de hoje não têm condições de acompanhar o processo de aprendizado dos filhos, por mais capenga que ele seja. Infelizmente, eles também já são frutos dos desmandos dos supostos pensadores da educação que permitem a um aluno deixar os primeiros anos sem os fundamentos necessários para continuar adquirindo conhecimento. Sim, pode ser antigo falar em “adquirir conhecimento”, mas é assim que se forma o lastro necessário para, amparados em pais e professores, ser capaz de alçar voo para construir o próprio conhecimento.

As desigualdades sociais não são de hoje, mas encontraram combustível na pandemia. Embora a precariedade do sistema escolar público, passa por ali a única receita que deu certo, nos últimos anos, em países que investiram na formação para restaurar as prerrogativas básicas do cidadão. Se os pais não estão em condições, é necessário que a escola se torne referência, de preferência em dois turnos, para os estudantes… e também para seus pais. Como faltam centros sociais de convivência nos lugares mais carentes, a escola pode – e deve – cumprir com este papel social.

Não pode ser apenas o desejo de uma autoridade, mas de uma população que se apropria do direito de construir o seu destino. Conheci, nos últimos anos, prefeitos e prefeitas que foram eleitos com a melhor das intenções. E até fizeram muito, enquanto administraram. Mas, depois, perdeu-se o senso de continuidade, na maior parte das vezes por interesses políticos que não queriam dar “munição” aos seus adversários. Educação, mal comparando, é como água e esgoto: para ser boa, é cara e leva tempo para aparecer. Exige investimentos, retirados de outras áreas. E dá muita incomodação…

Hoje, até a educação se presta para joguetes políticos. Por serem muitos recursos, faz-se um pingado que sequer maquia o que se tem. Professores podem dizer que mal cumprem com o básico. Verdade. A educação ideal é sonho que precisa focar no aluno. A solução não pode ser procurada apenas nas periferias e no interior. Sequer o “aluno” é apenas o menino ou a menina que iniciam seu aprendizado. Países que entenderam esta necessidade criaram a consciência de que um grande acordo pela cidadania vai além dos bancos escolares, encaminha a realização da própria sociedade.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome