
É na Colônia Ramos, a cerca de 25 quilômetros da zona urbana, que uma inovação ganha corpo para atender a um mercado até então inexistente no município. A La Beca Queijaria se encontra em processo acelerado de legalização para comercializar produtos derivados de leite de ovelha. Além da queijaria, a agroindústria familiar de laticínios vai oferecer itens como iogurte e doce de leite para abastecer o mercado gourmet. E não só. A ideia é emplacar o empreendimento nos roteiros do turismo rural, com direito à visitação, compra e degustação de produtos e café colonial.
A depender da determinação da proprietária, veterinária Camila Pizoni, a perspectiva dessas ideias saírem do papel não é pequena. Muito já foi feito em pouco tempo para transformar este projeto em realidade. Desde a compra da propriedade de 11 hectares em 2020, passando pela mudança com a família no ano seguinte, a dotação da estrutura necessária para produção e beneficiamento, como pastagens, equipamentos e obras físicas, aquisição do rebanho Lacaune (considerada a mais apropriada para leitaria ovina) – cursos de qualificação e visitas a unidades produtivas que já trabalham neste nicho de mercado, o que incluiu viagens para fora do estado.
Mas para tornar a queijaria devidamente formalizada, apta a comercializar produtos ao público em geral, há ainda um caminho a ser trilhado. Memorial descritivo das instalações foi entregue em julho ao Sistema de Inspeção Municipal (SIM) da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR). Após análise, assim que receber sinal verde da pasta, passo seguinte é executar as obras previstas no documento. Finalizada esta etapa, marcar vistoria. Daí, com o aval da SDR, a La Beca Queijaria estará enfim legalizada para disponibilizar a produção com a inspeção oficial do SIM.
“Espero que até o fim do ano”, estima Camila, sobre o cronograma de formalização do empreendimento, já inscrito no Programa Estadual de Agricultura Familiar (PEAF), o que a habilita a participar de eventos oficiais da agricultura familiar promovidos pelo governo do Estado.
Até lá, continuará se dedicando à propriedade e aos produtos da marca – já registrada. Por enquanto a fase é de experimentação. Na carta de queijos, há os feitos integralmente com leite de ovelha, os misturados com leite bovino, os acrescidos de nozes, além de iogurte com geleia de frutas (morango, uva e amora) e o doce de leite. No momento, testa receitas com queijo boursin – de textura cremosa, coloração branca e sabor suave. A degustação é restrita: se resume a familiares, amigos e à vizinhança mais chegada – dentre poucos felizardos. O retorno tem sido animador. O vizinho e “faz tudo” Homero Fiori é um desses. “Me surpreendeu, não sabia que leite de ovelha era tão bom”.
As primeiras peças foram feitas com leite bovino. Conforme Camila, as composições são totalmente diferentes. Ela se anima com o rendimento apresentado pelo plantel de ovelhas Lacaune: com cinco litros de leite se produz um quilo de queijo. Com leite de vaca, dez litros para a mesma quantidade.
Mercado
Camila mira o mercado gourmet, como boutiques e afins, além da venda direta por encomenda. E é aqui que a queijaria se insere no turismo rural, para agregar valor. “Quero que venham aqui, conhecer a propriedade e conferir nossa produção”, reforça a empreendedora.
Acessar a propriedade não é difícil. Nesses 25 quilômetros que separam a La Beca da zona urbana, apenas quatro são em estrada de chão. Para chegar é necessário percorrer trecho da antiga Federeca – faixa pavimentada que liga a BR 116 ao Arroio do Padre, a partir do viaduto erguido pouco antes da praça de pedágio. A principal referência é a Escola de Ensino Fundamental Dona Maria Joaquina, à direita da via, sentido ao município. Mais uns metros adiante, primeiro acesso à esquerda. Bom passeio.
Confira no Insta
Mas se o processo para colocar a La Beca em atividade passa por etapas de ordem sanitária, no ambiente virtual ela é realidade. A conta no Instagram (https://www.instagram.com/labecaqueijaria/) soma 600 seguidores. Nela, Camila Pizoni e a filha Aurora, de sete anos, mostram a vivência no meio rural e o manejo junto ao plantel, além da produção que a agroindústria vai lançar no mercado.
Mas para além da visibilidade da marca, a rede social tem objetivo mais nobre. Camila diz que toda sua formação foi feita em universidade pública. Se sente no dever de repassar esses ensinamentos. A ideia é também ampliar esse tipo de informação no ambiente virtual e oportunizar na forma de reels, legendas, fotografias e stories que os usuários saibam de onde e como vem o produto que consomem.
O seguidor tem acesso a informações sobre ordenha, higienização, criação, composição nutricional do leite de ovelha, que segundo a veterinária tem mais concentração de gordura que o de vaca, embora formado por moléculas menores que o torna mais digerível.

No ritmo certo
O responsável técnico da Emater/RS-Ascar em Pelotas não põe dúvidas no sucesso do empreendimento. Veterinário, Marcelo Souza ressalta que antes mesmo de estar formalizada, a marca já é reconhecida graças ao trabalho de divulgação. Já dispõe de logotipia e, para fins burocráticos, de registro junto a órgãos competentes. Uma amostra, para ele, de que o caminho leva a um bom destino. “O processo está ágil e, mais importante, sólido, muito bem pensado, tanto na criação dos animais como na produção para a agroindústria”, avalia.
Ele aponta que a questão da pastagem foi um dos desafios que a produtora enfrentou. Enfrentou e superou. Camila encontrou na propriedade um campo nativo “sujo”, que há muito não era trabalhado. Com ajuda da Emater, que a produtora considera fundamental, se iniciou processo de correção de solo. “O passo está no ritmo certo”, garante Souza.
Ela concorda: “Está indo como deveria, em meio ano eu tinha três ovelhas em lactação, em janeiro [ano que vem] vou ter nove, muito mais volume de leite para trabalhar”, justifica ela, que projeta um total 200 animais em lactação na propriedade. Hoje o rebanho contabiliza 22 ovelhas. Começou há quase um ano e meio com dez matrizes e dois machos, adquiridos em Pinto Bandeira (Serra Gaúcha), pioneira no Brasil na venda da genética Lacaune.
Estilo de vida
Do ponto de vista mercadológico, a escolha pela ovinicultura leiteira atende no mínimo a uma brecha regional. Porém, além do empreendedorismo, o estilo de vida que alimenta desde a graduação em Medicina Veterinária na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), iniciada em 2007, quando chegou da longínqua Santa Rosa (Noroeste do estado), também ajudou a optar pelo meio rural. “Melhorou 100% a qualidade de vida”, comemora.
Até aqui, diz que tem sido como imaginava. Na Colônia Ramos, encontra o sossego e a calmaria que procurava. “Tem verde pra ver, os meus cachorros, coelho, gato, minha filha tem espaço para brincar, colégio perto – nem penso em voltar”.
Aliado a isso, há outra descoberta: a gastronomia. “Fazer queijo é uma ciência, é teste, tentativa e erro, e é totalmente prazeroso perceber que dá certo”, conta. Garante não ter segredo. Ou melhor, tem. “Persistência, sem persistência não se faz queijo – nem queijo nem nada”.



