
Fica no Sítio Floresta, na Zona Norte de Pelotas, a primeira agroindústria familiar de produção e envasamento de mel. A Agrosell, administrada pelo casal de apicultores Udo Edemar Sell e Andréa Mota Sell, está devidamente formalizada há apenas três meses. A inauguração oficial está prevista para depois da Feira Nacional do Doce (Fenadoce), que ocorrerá entre os dias 2 e 18 de junho.
A cerimônia será protocolar na medida em que a unidade já funciona a pleno. O mel produzido pelo casal pode ser encontrado em vários estabelecimentos comerciais espalhados pela cidade. Está à venda em diferentes tamanhos, de um quilo a 500 gramas, nas bancas do grupo Mendes, localizadas na rua Sete de Setembro esquina com a General Osório, esquina do Café Aquários, e na rua General Neto, na área central. Também está presente no supermercado Bergmann e em mercados no Sítio Floresta, ambos na Zona Norte, aos sábados na avenida Dom Joaquim, também em banca, e no bairro Areal, mercado MB, na avenida Domingos de Almeida.
A venda também é realizada a pronta-entrega, por meio do WhatsApp (53) 98159-3161. E para quem não perde uma edição da Fenadoce, será possível conferir a produção da Agrosell no pavilhão da Agricultura Familiar da Feira. A agroindústria é presença garantida no espaço instituído em 2015, com apenas oito produtores, e que hoje é um dos mais concorridos no evento.
Por isso, a “correria”. É a primeira vez que o empreendimento participa de um evento de maior projeção. Até então só havia estado presente em iniciativas de menor escala na zona rural de Pelotas. A expectativa é boa. “Vai ser a primeira grande oportunidade de mostrar nosso mel diretamente a um público maior, não só de Pelotas, mas de vários lugares da região, do estado e até do país, estamos animados”, afirma Udo.

Esta oportunidade, no entanto, não seria possível não fosse a formalização como agroindústria familiar. E nesta mudança de patamar o apoio da Emater/RS-Ascar foi fundamental. No caso, do Escritório Municipal. O processo foi relativamente longo. Durou pelo menos quatro anos, desde a visita à Emater, em 2019, até março de 2023 quando o trabalho de Udo e esposa ganhou o status de agroindústria familiar.
Mas o vínculo do apicultor com a produção de mel começou bem antes da primeira visita em busca de capacitação. Foi em 1999, recém instalado no Sítio Floresta, no limite com a zona rural de Pelotas, que ele deu seus primeiros passos no universo da apicultura. Até então, era apenas uma atividade para reforçar o orçamento doméstico. Udo, à época, trabalhava na construção civil – da qual já desejava se afastar.
O chefe da Emater no município e responsável técnico pelo empreendimento dos Sell, Francisco Arruda, conta que a primeira coisa a ser feita foi a inscrição no Programa Estadual da Agroindústria Familiar, que faz parte da política pública destinada à formalização da produção da agricultura familiar.
Na sequência, a Emater encaminhou o produtor ao Centro de Formação da Empresa em Canguçu para um curso de cinco dias sobre cuidados, higiene e manejo. Período em que teve de abrir mão de trabalhar em seu principal sustento. “Foi um sacrifício para ele”, lembra o chefe da Emater. Udo também recorda: “Parei uma semana inteira, mas valeu a pena. Sempre quis produzir e embalar o meu produto, uma espécie de sonho que eu queria realizar desde o primeiro enxame”.
Etapas vencidas e investimentos necessários, apicultor e família aportaram ao todo R$ 75 mil em equipamentos e em uma edificação de 60 metros quadrados ao lado da casa. A Agrosell finalmente passou a operar como a primeira agroindústria familiar de produção e envasamento de mel em Pelotas a partir de março deste ano. No entanto, um detalhe importante é que não fosse o conhecimento da antiga profissão, o valor investido seria acrescido com custos de mão de obra para levantar a instalação onde o mel é beneficiado.
Se valeu a pena passar os cinco dias no Centro de Formação da Emater em Canguçu, mais ainda foi se estabelecer como agroindústria familiar. As vantagens não são poucas. Hoje o mel Agrosell ostenta o selo Sabor Gaúcho, que atesta procedência e inspeção sanitária – garantia indispensável de qualidade e segurança ao consumidor. Aqui, Arruda faz questão de destacar o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural, responsável pela regulamentação das agroindústrias. Graças a esse serviço, a obtenção do selo permite ao empreendedor rural familiar percorrer feiras e eventos concorridos do setor primário, como a Expointer, em Esteio, ou a Expoagro, em Rio Pardo.
“Tem uma certa burocracia [sobre a obtenção do selo], mas abre um leque de negócios e de visibilidade”, justifica Arruda. “O selo do SIM na embalagem indica credibilidade e procedência”, afirma.
Qualidade e produção
Se ainda há um longo caminho em feiras para os Sell percorrerem, em concursos de qualidade do mel, nos quais o produto é avaliado em densidade, aroma, qualidade e grau de pureza, o casal já faz história. Nos dois anos anteriores, a produção da família foi reconhecida nos dois certames em que participou, ambos em Pelotas, promovidos pelo Escritório Municipal da Emater. Em 2021, emplacou 1º lugar nos dois méis, claro e escuro; em 2022, 2º lugar no mel claro, no concurso realizado no Cerrito Alegre (3º distrito).
Ao todo, são seis apiários, com 180 caixas, espalhadas por Pelotas (no Grupelli e na Colônia Ramos), Capão do Leão, Piratini e Herval. Somando as duas últimas safras – da primavera 2022 e outono 2023 – foram produzidos 3,6 mil quilos. Udo está ciente de que a próxima pode não ter a mesma produtividade em razão do El Niño, fenômeno que provoca chuvas acima da média no Rio Grande do Sul. “[A chuva] lava muito o néctar”, explica.
Muitos desafios, portanto, pela frente – o que para Udo e esposa não é novidade. O casal garante que “se quiser” não tem direito à folga nem aos domingos. Na entressafra, no inverno, é necessário visitar os apiários regularmente para alimentar os insetos com bife proteico, um combinado de proteína de soja com açúcar e mel – além de xarope com água e açúcar. Tudo feito com Equipamento de Proteção Individual (EPI) completo, de bota à máscara telada. ”No verão a gente fica ensopado”, conta Udo, sobre o equipamento necessário para o manejo nas caixas. “Tem que tomar água o tempo todo – ou cerveja”, ri.
Brincadeiras à parte, a ideia dos Sell é expandir a presença no varejo e, claro, embarcar no roteiro das feiras. Outra fonte de receita é fornecer a estrutura da agroindústria para beneficiar a produção de outros apicultores – atividade que já está no horizonte.
Com a proximidade do inverno, o casal aposta no aumento dos pedidos.
No entanto, o maior consumo nos meses mais frios do ano não é tão exponencial como se imagina. A alta na demanda corresponde mais a xaropes caseiros para combater doenças respiratórias típicas da estação. “Não vejo tanta diferença. No inverno os pedidos em média costumam ser de 30 dias, enquanto no verão o intervalo é de 40 – para fins de alimento não percebo mudança”.
Preços
Embora doce, o preço do mel costuma ser considerado salgado para a maioria das famílias. O produtor não nega esta realidade, que segundo ele corresponde mais a custos de produção, principalmente da embalagem (vidro ou PET). Hoje a fabricação se encontra na mão de um cartel. Mas independentemente das variáveis que determinam o preço do produto no varejo, o chefe da Emater em Pelotas resume: “Ganhamos pouco”. Para Francisco Arruda, a média salarial baixa da classe média é o que mais contribui para tornar o pote de mel menos acessível à maioria da população.




No meu ponto de vista o título da matéria está errado ou no mínimo equivocado. Os apicultores não fazem mel. Eles apenas beneficiam o produto, até porquê, quem faz mel e as abelhas. Mas estão de parabéns o casal agricultor/apicultor pela tão sonhada conquista.
Mel de altíssima qualidade! Recomendo!